por Sinara Gumieri

publicado originalmente no Portal Justificando

Heloísa Lopes Cohim Moreira é uma estudante de medicina da Universidade Federal da Bahia que acredita que médicos devem ser capazes de cuidar da saúde sexual de suas pacientes sem misoginia. Ao estudar o material didático sobre infecções sexualmente transmissíveis (IST) do MedGrupo, uma empresa de cursinhos para concursos na área médica, Heloisa se espantou: pacientes com IST são ridicularizadas e desumanizadas nas descrições de casos clínicos.

Uma mulher que termina um relacionamento abusivo e se relaciona sexualmente com mais de um homem é representada em uma imagem hipersexualizada, vestindo uma fantasia de diaba. Sobre uma jovem de 18 anos, ilustrada como um corpo nu de quem um homem se afasta com cara de repulsa, se diz que tem dois problemas: “um corrimento vaginal com odor a ‘peixe podre’ e o fato de não conseguir ‘segurar’ nenhum namorado”.

Sobre uma rainha de bateria de escola de samba, representada como uma mulher negra em minúsculos trajes carnavalescos rodeada de homens brancos, se diz que “é conhecida por seus dotes físicos” e “sempre disputadas pelos gringos”, em seguida descritos como “clientes” de um trabalho sexual presumido no texto. Heloísa escreveu para a empresa, questionando casos retratados “com tamanha falta de humanidade, bom senso e carregados de tanto machismo e julgamento”.

Em resposta, o MedGrupo disse apenas que é “contra a agenda do politicamente correto”, uma expressão cunhada por conservadores estadunidenses para deslegitimar demandas por igualdade e respeito a direitos humanos na linguagem cotidiana.

A resposta desdenhosa tenta desresponsabilizar a empresa pela baixa qualidade do material que comercializam, mas só foge covardemente da pergunta. Por que será que os doutores professores do MedGrupo acham que estão dispensados da obrigação de ensinar estudantes a respeitar o Código de Ética Médica, que proíbe a classe profissional de “tratar o ser humano sem civilidade ou consideração, desrespeitar sua dignidade ou discriminá-lo de qualquer forma ou sob qualquer pretexto”?

Muita tinta e papel gastos pelo MedGrupo não serve nenhum propósito de aprendizado de habilidades clínicas. É só desperdício de material que sugere que médicos podem abusar de seu poder de conhecer intimidades de corpos para, em vez de cuidar, impor sua moral sexual patriarcal, seja ridicularizando desconforto e sofrimento de pacientes, propagando estereótipos racistas e machistas ou agindo como se a saúde sexual das mulheres fosse um instrumento para garantir satisfação a homens.

Tudo isso para quê? Usar linguagem discriminatória para entreter estudantes de medicina entediados? É receita para formar maus médicos que, desatentos a suas próprias regras de ética profissional, podem violar direitos de pacientes. Quem sabe de tudo isso é Heloísa, que destacou em seu email: “Muitos jovens do Brasil tem acesso a esses conteúdos, ou seja, os senhores são formadores de opinião e devem se responsabilizar mais por isso”. Os doutores professores do MedGrupo têm muito a aprender com a corajosa estudante.