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Sistema de saúde barrou grávidas com Covid e aumentou mortalidade no Brasil, diz estudo

4 de abril, 2022

Obstáculos forçaram mulheres a percorrer até cinco centros de saúde até serem atendidas

Por: Mônica Bergamo/ Folha de S. Paulo

Um estudo brasileiro publicado na The Lancet Americas tentou analisar com maior profundidade as razões para que o Brasil registrasse uma das maiores mortalidades maternas, entre mulheres grávidas e puérperas, por Covid-19. Foram, no total, 1.948 óbitos, sendo que a maioria deles (1.488) ocorreu em 2021. Do total, 59% delas não tinham fator anterior de risco ou comorbidades.

A pesquisa entrevistou 25 famílias e parentes de grávidas ou puérperas que morreram por Covid-19. E descobriu que o sistema de saúde estava despreparado para recebê-las, a tal ponto que algumas grávidas chegaram a percorrer até cinco centros de saúde antes de receberem tratamento –já com o quadro agravado, e resultando em óbito.

O estudo, assinado pelas pesquisadoras Debora Diniz, professora da Universidade de Brasília, Luciana Brito e Gabriela Rondon, do Instituto Anis de Bioética, identificou três barreiras para esse alto índice de mortes.

“A primeira foi um atraso quando elas apresentaram um primeiro sintoma”, explica Debora Diniz. “[Os médicos] mandavam elas de volta para casa, não investigavam o sintoma de Covid. Tomavam a falta de ar, por exemplo, como um sintoma da gravidez.”

“Depois disso, com uma média de espera de sete dias, elas foram várias vezes ao hospital, algumas a cinco diferentes centros médicos pra conseguirem ser admitidas. Tinha uma barreira para a admissão. Os sistemas de saúde diziam que não atendiam grávidas [por estarem com urgência para pacientes de Covid-19] e as maternidades diziam que não atendiam Covid-19”, segue a pesquisadora.

Ela aponta na sequência a terceira razão da tragédia: “Quando a paciente finalmente entrava no sistema, queriam salvar o feto em detrimento da paciente”. Dos 25 casos entrevistados, 19 fetos sobreviveram. “Diziam que os tratamentos intensivos interromperiam a gravidez. Não dá pra saber se eles salvariam as mulheres, mas eram a melhor medicina para o caso”, diz.

“Identificamos essas barreiras impostas às mulheres grávidas em uma emergência de saúde. Elas não eram consideradas o centro da atenção. O centro era ganhar semanas para o feto desenvolver um pouco mais e sobreviver fora do útero, como um prematuro. Tanto que das 25 mortes, 19 o feto sobrevive. E seis desses casos eram gravidez de segundo trimestre. Era muito difícil que os fetos sobrevivessem.

Diniz afirma que as famílias consultadas disseram a ela que não eram questionadas sobre quem priorizar no tratamento, se a mulher ou o feto. “Quatro delas disseram que pediram o contrário, pra salvar ela, que poderia ter outros filhos. Mas quando [as pacientes] entravam na UTI, elas perdiam o contato com a família. Uma das famílias me disse que pediu ao médico que salvassem a mulher, ‘mas não me ouviram’”, conta.

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