Em sua coluna desta semana, a antropóloga Debora Diniz analisa comportamento de homens que usam as redes sociais para atacar minorias políticas, feministas e compartilhar fake news

Debora Diniz

Publicado originalmente na Marie Claire

Adotei a expressão “milicianos do ódio”. Uso no masculino, pois são majoritariamente homens que movem a desordem e a violência odiosa. Alguns gostam de fazer flexões de braço na posse do presidente da república, outros se escondem atrás de um computador e passam o dia ameaçando feministas e gays como se estivessem em uma disputa de videogame. Já os descrevi como os ressentidos da história e volto a explicar a razão. São homens que esperavam herdar os privilégios do patriarcado, em que as mulheres cuidavam da casa e dos filhos, enquanto a eles o mundo era uma permanente descoberta. De repente, se viram em uma nova era, onde as mulheres fazem escolhas, trabalham, nem todas admiram esse tipo de masculinidade. Por isso, um dos alvos prioritários do ódio somos nós, as feministas.

Se há uma conta que cabe às feministas foi o de ter lutado para que pudéssemos votar, para que ocupássemos cargos na política, para que pudéssemos cuidar da casa e viver o mundo do trabalho. Para que possamos viver livre de violência doméstica. O curioso é que a feminista da fantasia do miliciano é outra: é quase o seu espelho invertido em um corpo feminino – seriam as mulheres que odeiam os homens, que rejeitam a maternidade ou o casamento, que repudiariam expressões do feminino. Talvez precisem fantasiar a feminista abjeta para sustentar o ódio cotidiano, pois não suportariam ver em suas próprias mães, filhas ou esposas algo da feminista que rejeitam.

É certo que há mulheres que reproduzem a narrativa dos milicianos do ódio. Como antropóloga, me esforço para compreendê-las. Não é fácil a uma mulher se libertar das amarras do machismo, menos ainda despregar-se da masculinidade que representa o poder patriarcal. Por isso, mulheres que defendem os milicianos justificam-se em “nome do pai, do avô, ou dos homens de minha família”. Seriam os homens de bem que apenas fazem broma das mulheres ou dos gays na sala de jantar. Todas nós fomos socializadas em uma ordem de gênero que se supõe natural e que justifica a desigualdade entre homens e mulheres – seriam os homens fortes e as mulheres frágeis. Quem já não ouviu esta fábula para explicar quem somos em nossas desigualdades?

Há outra razão, no entanto. Os milicianos do ódio ocupam um espaço deixado pelas novas formas de sociabilidade. Não temos mais tempo para os encontros intergerações ou para as conversas com argumentos. Estamos sempre com pressa. Nas mídias sociais, o convite ao ódio é fácil e de prazer imediato: basta xingar alguém, difundir uma meia verdade ou uma mentira, participar de uma corrente para derrubar a conta de uma desconhecida que foi descrita como feminista. Há mulheres mais velhas neste engajamento miliciano – e a elas mais do que meu esforço de compreensão antropológica, ofereço compaixão. A iniciação digital tardia as tornou vítimas de um abuso cibernético: participam de milícias com a convicção de que seu gesto de xingamento ou denúncia é participação política.

A milícia do ódio não irá durar muito. As pessoas, em particular as mulheres, entenderão que este é um jogo pouco democrático e insensível às suas próprias vidas. Nesse momento de clarividência, que será em breve, temos que estar preparadas para acolhê-las, pois um sentimento de humilhação dominará os arrependidos da milícia. A mim, me interessa especialmente cuidar das mulheres mais velhas, aquelas com vasta experiência e memória sobre como a vida de nossas mães e avós foi difícil sob a moral patriarcal. Elas serão uma voz de testemunho do passado e de esperança para o futuro.