A professora e antropóloga, que saiu do Brasil após ameaças de grupos de ódio, avalia que Glenn Greenwald, jornalista do The Intercept Brasil responsável pelos vazamentos que colocam em xeque a Lava Jato, pode se tornar alvo desses grupos; “Em um momento fui eu, o Jean Wyllys, e agora pode ser o Glenn”

Publicado originalmente na Revista Fórum

A antropóloga e pesquisadora Debora Diniz, uma das maiores especialistas do Brasil em direitos reprodutivos e nome importante da luta pela descriminalização do aborto, avaliou em entrevista ao programa Fórum 21 desta segunda-feira (10) que Glenn Greenwald, jornalista do The Intercept Brasil responsável pelos vazamentos que colocam a operação Lava Jato em xeque, pode vir a correr riscos no Brasil.

Em dezembro do ano passado, Debora deixou o Brasil e passou a morar nos Estados Unidos por conta das constantes ameaças que era alvo de grupos de ódio, nas redes e nas ruas, motivadas pela sua atuação na defesa dos direitos humanos e dos direitos das mulheres. Ela chegou, inclusive, a ser incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos do Governo Federal.

“Nós vivemos em tal estado de instabilidade democrática que nós fazemos a seguinte pergunta à vitima ou ao defensor de direitos humanos: você acha que aquilo que você faz pode o colocar em risco? Estamos invertendo a lógica de compreensão do que são as proteções de direitos. Essas milícias virtuais, esses grupos de ódio, eles têm um radar. E esse radar vai pescar pessoas diferentes em diferentes momentos do processo político. Em um momento fui eu, em outro Jean Wyllys, e pode ser o Glenn. Não é sobre o que nós façamos. O que estamos fazendo é parte de qualquer democracia, que é colocar a controvérsia no espaço público.É simplesmente o radar do ódio e a busca de novas vítimas”, afirmou a pesquisadora.

“O que o The Intercept fez é um gesto importante de coragem. Tem um papel fundamental quando uma democracia está insegura, como é o caso brasileiro”, completou.

A expectativa é que o site de Glenn Greenwald divulgue, ao longo da semana, ainda mais materiais que, segundo os editores, devem abalar ainda mais agentes da operação Lava Jato. Os vazamentos, que começaram a ser divulgados no domingo (9), trazem à tona conversas do ministro Sérgio Moro, na época em que ainda era juiz, do chefe da força-tarefa, Deltan Dallagnol e de outros procuradores que que mostram atuação conjunta e articulada para impedir vitória eleitoral de Fernando Haddad, antecipar a prisão de Lula e até mesmo apresentar provas consideradas inconsistentes.

Nesta segunda-feira (10), em vídeo divulgado em suas redes sociais, Dallagnol acompanhou Moro que, mais cedo, afirmou que não havia “nada demais” nas conversas. O procurador ainda foi além e disse ser “natural” que procuradores e juízes conversem sobre processos.

Debora Diniz, que foi professora da Faculdade de Direito da Universidade de Brasília (UnB), no entanto, discorda.

“Eu não sei da onde vem essa presunção de naturalidade dele. Talvez o poder converse mas o poder conversa de maneira equivocada. Qualquer cidadão tem direito à divisão dessas forças: aquele que acusa e aquele que julga. O que vimos nas trocas de mensagens não são mensagens inocentes. Sugerem uma cumplicidade intensa. Isso é de uma gravidade tremenda porque toca em algo que é a estabilidade do sistema de Justiça. Ao contrário do que disse o procurador, não vejo nenhuma naturalidade naquilo que foi apresentado”, analisou.

No mesmo programa, a antropóloga avaliou ainda que o Supremo Tribunal Federal (STF) está “acovardado” e ainda falou sobre os ataques do governo Bolsonaro à área da educação.