Eles fizeram parte da minha formação, acreditavam em seu trabalho humanitário e na dedicação abnegada ao País, mas não acreditavam que “o erro da ditadura foi torturar e não matar”.

por Gabriela Rondon

Publicado originalmente no Huffpost Brasil

“Famílias sem pai e avô, só com mãe e avó são fábrica de desajustados”, foi o que tivemos de ouvir esta semana de um candidato à vice-presidência da república, general reformado Hamilton Mourão. Ouvimos todas nós e as 30 milhões de famílias brasileiras que são chefiadas por mulheres. 2 em cada 3 delas sem a presença de um companheiro na casa, segundo a PNAD 2015.

Como elas, também cresci em casa de mãe e, no meu caso, avós. Não acho que o general falava de mim quando pensava em desajustados, mas penso em quem desconsiderava como interlocutoras de seu discurso: mulheres trabalhadoras, cuidadoras integrais em tripla jornada de seus filhos e netos, também minha mãe e minha avó. Aquelas que colocam comida na mesa, cuidam da febre de madrugada e ajudam nas lições. Não outra coisa senão pilares de família. Não era a elas que o general se dirigia. Falava delas, não para elas. Com tamanha rejeição do eleitorado feminino à chapa dos ex-militares, surpreende que ainda não tenham se dado conta, 84 anos depois, que, sim, mulheres votam neste País.

Os militares que conheci, na casa ou na escola, não eram esses que desdenham do lugar das mulheres na sustentação das famílias.

Apesar de ser uma das filhas das casas potencialmente desajustadas, há mais coisas que me aproximam do general do que imaginaria. Também sou neta de oficial das forças armadas e estudei em Colégio Militar durante os sete anos que o sistema oferece, até chegar a ser coronel-aluna. Nunca imaginaria que escreveria isso em texto a não ser para reforçar o meu espanto. Os militares que conheci, na casa ou na escola, não eram esses que desdenham do lugar das mulheres na sustentação das famílias, que acham estupro motivo de riso ou que veem graça em fazer dedos de menininha como arma em comício.

Os militares que fizeram parte da minha formação acreditavam em seu trabalho humanitário e na dedicação abnegada ao País, mas não acreditavam que “o erro da ditadura foi torturar e não matar”. Os militares que foram tão importantes na minha história não me educaram para acreditar que eu deveria ganhar salário menor que meus colegas homens por meu potencial de engravidar e gerar famílias – pelo contrário, me incentivaram a chegar até o posto mais alto daquela hierarquia escolar.

Os militares que foram tão importantes na minha história não me educaram para acreditar que eu deveria ganhar salário menor.

Fossem quais fossem nossas divergências ideológicas, nenhum deles me ensinou a violência, a discriminação ou a desigualdade como caminhos. Esses não são pontos menores nessa corrida eleitoral, mas são cruciais para entender como pensam um projeto de País afirmando ou negando cidadania e igualdade a algumas de nós. Por tudo que aprendi, não há como não dizer: em 7 de outubro, ele, não.