Artista plástico e antropóloga reúnem em delicado relicário virtual histórias de mulheres vítimas de Covid – 19

Por Mariana Costa

Publicado originalmente no site da Universa Uol

“A primeira mulher a morrer no Rio de Janeiro é sem nome. Sabemos que era empregada doméstica. Morreu porque não lhe avisaram que a patroa estava doente. Deixou filhos. Deixou em nós a cicatriz do que faz a herança colonial neste país.” Foi assim, recolhendo fragmentos de subjetividade garimpados no noticiário, que a antropóloga Debora Diniz deu início a uma delicada homenagem às mulheres mortas pelo Covid-19 no país.

No final de março, quando os números já sinalizavam a curva ascendente de mortes, Debora lançou no Instagram a página @reliquia.rum (em alusão à palavra relicário em latim) onde, desde então, publica diariamente textos e imagens que buscam retratar as histórias de mulheres mortas na pandemia. O texto é criado por Débora a partir de notícias sobre mulheres comuns, anônimas em sua maioria, garimpadas com ajuda de uma historiadora voluntária. As ilustrações são feitas pelo artista visual Ramon Navarro com colagens sobre fotografias antigas de mulheres brasileiras igualmente anônimas.

“[No noticiário] As pessoas passaram a ser descritas como número 1, 22, 37 em tal cidade. Elas eram chamadas de pacientes e tinham todas as suas doenças prévias descritas, mas muitas vezes não tinham nome. O relicário é uma tentativa de dizer: aqui estão os pedaços e as relíquias de cada vida que escaparam às notícias de uma pandemia”, explica Debora.

Vida no Instagram

Usuários da rede social popularizada pelas imagens felizes e solares têm se emocionado com os posts e ajudado a divulgar a página, que hoje tem 10 mil seguidores. Com isso, familiares, amigos e conhecidos das vítimas passaram a reconhecê-las nos relatos e agradecer às homenagens.

“São pessoas que não me conhecem, nem eu as conheço. Muitos familiares vêm nos agradecer pela maneira como ilustramos seus entes. É muito emocionante”, afirma Ramon Navarro, autor das ilustrações.

Uma delas é Germaine Herculano Ribeiro dos Santos. “Kamilly amava coisas antigas, relíquias e coisas que contam histórias do passado”, lembra ela, mãe da jovem Kamilly, 17. Mãe e filha contraíram o vírus, mas a adolescente não resistiu.

Com o crescimento da página, os autores passaram a ser procurados diretamente por parentes e amigos de vítimas cuja morte sequer fora noticiada, no desejo de que suas histórias também possam ser contadas. “Passamos a ter as filhas, irmãs, mães dizendo ‘conta a história daquela minha que morreu’. E elas contam as histórias. Não era isso que imaginávamos, mas também acabam sendo formas noticiosas, alguém que entra e conta uma história. E são muito mais intensas porque são as pessoas falando, o que é diferente dos números e notícias”, conta Debora.

A dificuldade de vivenciar o luto, sem os rituais fúnebres devido ao alto risco de contágio, torna as perdas pela pandemia ainda mais dolorosas -e a existência de iniciativas como essa, mais tocantes.

Não é a primeira vez que a antropóloga volta seu olhar para os efeitos de uma epidemia sobre as mulheres. Com uma extensa e premiada carreira como documentarista e pesquisadora das questões de gênero e direitos das mulheres, Debora é autora do livro “Zika: do sertão nordestino à ameaça global” (Civilização Brasileira), que também rendeu um documentário.

A opção de contar histórias femininas foi uma provocação proposta por Debora, que alerta para efeitos desiguais da pandemia entre homens e mulheres. Elas representam a maioria na chamada economia do cuidado: são trabalhadoras domésticas, caixas de supermercados, técnicas de enfermagem.

“Como vão sobreviver as mulheres mais vulneráveis, que dependem das avós, que dependem de uma circulação de crianças na comunidade, da família expandida – e que têm que se manter nos trabalhos de cuidados, muitos deles considerados essenciais durante a pandemia?”, diz.

A antropóloga faz um alerta para a alta mortalidade entre mulheres jovens nessas ocupações, e ressalta que as medidas de isolamento social são um “efeito de corte em todas as mulheres, mesmo com suas classes sociais e diferenças”, com o acúmulo do trabalho remoto com a engrenagem doméstica entre as mulheres de classes mais altas.

“Contar histórias de mulheres é contar uma história do que é uma vida de cuidado e interdependência. Se queremos pensar que tipo de vida e sociabilidade queremos ter, que tipo de humano queremos ser após a pandemia, esses valores têm que estar no centro. E são valores feministas”, afirma.

A seguir, três famílias relatam a Universa quem eram as mulheres que perderam a vida em meio à pandemia. As ilustrações fazem parte do projeto.

Mara planejava férias no Rio

Mara Rúbia Silva Cáceres, 44, trabalhava como técnica de enfermagem no hospital Conceição, em Porto Alegre. Foi a primeira vítima entre os profissionais de saúde do estado. Faleceu em 7 de abril. O depoimento é do marido, o torneiro Juan Julio Cáceres, 48, com quem foi casada por 21 anos. O casal vivia em Alvorada, na região metropolitana de Porto Alegre.

“Mara gostava muito do que fazia, não se via trabalhando em outra coisa. Era uma esposa maravilhosa, sempre alegre. O dia a dia sem ela é bem difícil. Éramos como dois em um. Sempre dedicada, sempre tentando ajudar.

Todo ano ela comprava rosas e distribuía na festa de navegantes, era muito devota de Nossa Senhora. Tinha mão boa para a cozinha, aprendeu com a avó. Todos os dias ela chegava por volta das 20h, sentava no sofá e contava uma ou várias histórias do dia.

Às vezes eram histórias tristes, às vezes era final feliz e ela ficava toda faceira e alegre. Queria fazer faculdade, mas não sabia se se especializava em sua área ou se queria estudar para ser assistente social. Amava o Rio de Janeiro e tinha comprado em janeiro passagens para nossas férias em maio.”

Terezinha adorava dançar

Terezinha, 61, era a caçula de dez irmãos. Aposentada, vivia em Rio Real, no sertão baiano. Tinha Síndrome de Down e era o xodó da família. O depoimento é da tia, Naide Costa.

“Terezinha nasceu com Síndrome de Down. O nome foi uma homenagem à santa, tinha muito disso na época. Era muito esperta, sabia dançar no ritmo, fazia sua higiene pessoal, lavava louça, arrumava o quarto dela. Arrumava a cama muito detalhadamente, não deixava nem um vinco na cama.

Ela tinha muita habilidade para dançar. Era muito alegre, dançava samba. Conviveu com a gente anos e anos na roça, depois mudou-se para a cidade. A mãe faleceu e ela foi morar com uma irmã mais velha. Recebeu a aposentadoria e com isso pagava as despesas dela.

Gostava muito de comer bolo e tomar Coca-Cola. Tinha uma paixão especial por todas nós. Rezava e ia à missa sempre. Todo mundo adorava ela na cidade. Conhecia todas as pessoas. Tinha medo de andar de carro até que um dia foi passear e começou a gostar. Era um anjinho.”

Kamilly queria ser médica

Kamilly Ribeiro dos Santos, 17, foi a mais jovem vítima no estado do Rio de Janeiro. Mãe e filha contraíram o vírus, mas a adolescente não resistiu e morreu no dia 14 de abril. Era saudável, não tinha problemas de saúde. O depoimento é da mãe, a dona de casa Germaine Herculano Ribeiro dos Santos, 43.

“Kamilly era uma menina muito madura. Parecia ser minha mãe, me aconselhava e dava muita força. Era muito chegada a Deus. Era uma pessoa pura, ia da escola para casa, da casa para escola ou para a igreja. Ajudava com os computadores da igreja e da escola também quando dava problema. Ela gostava de ajudar.

Sempre com aquele sorrisão no rosto. Kamilly se batizou aos 12 anos na igreja batista. Quando ia para igreja, gostava de se arrumar. Era uma amiga, não era só minha filha. Era um anjo.

Nós duas ficamos no isolamento, ela ainda cuidou de mim. Eu me curei, ela infelizmente não resistiu. Fez Enem no ano passado e ia fazer de novo esse ano. Sempre gostou de estudar e se interessava pelo ramo científico, queria ser pesquisadora ou médica.

Tinha muitos amigos na igreja, na escola. Sempre batendo papo no celular. Gostava de fazer bolo e inventava coisas diferentes para comer. Faria 18 anos em maio.”