por Sinara Gumieri

publicado originalmente no Portal Justificando

Marisa Letícia Lula da Silva, esposa do ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, sofreu um acidente vascular cerebral e esteve internada por vários dias, mas não resistiu. Por ser uma figura pública, foi ampla a visibilidade do luto de seus familiares e amigos, que se despediam da mulher que, tendo começado a trabalhar ao 13 anos de idade, ajudou a fundar o Partido dos Trabalhadores. O status de Marisa também tornou visível um outro tipo de comoção: discursos e práticas odiosas de um grupo cuja responsabilidade profissional e dever legal é cuidar e salvar vidas.

A médica Gabriela Munhoz trabalhava no hospital em que Marisa Leticia estava sendo tratada, e divulgou, em um grupo de Whatsapp de colegas de profissão, informações sigilosas sobre o estado de saúde da paciente. Não é preciso especular sobre motivos para a conduta da reumatologista porque não importam para configurar a transgressão: sigilo médico é direito de todas as pessoas. Segredos do corpo e dores silenciosas só são reveladas aos profissionais da medicina porque são meio necessário para que pacientes sejam cuidados. Informações íntimas de cada corpo adoecido são instrumento de trabalho de médicos, que portanto não podem usá-las para nada que não seja tratar da saúde.

Richam Faissal Ellakkis é o médico neurocirurgião colega de Whatsapp de Munhoz que, ao saber do estado de saúde de Marisa Letícia, não só não se espantou com a infração ética que testemunhou como foi além: comentou de que forma os procedimentos médicos realizados na paciente poderiam ser usados para matá-la. Repetir o que ele disse me envergonha: “Esses fdp vão embolizar ainda por cima. Tem que romper no procedimento. Daí já abre pupila. E o capeta abraça ela”.  Ellakkis ofereceu um exemplo tenebroso e didático de porque o sigilo profissional existe: para que informações sensíveis não sejam usadas para fazer mal a pacientes. De quebra, o médico demonstrou, com sua ameaça pretensamente jocosa, como o poder de cuidar pode ser convertido em poder de maltratar e matar.

Munhoz e Ellakkis foram mandados embora dos hospitais em que trabalhavam, e o Conselho Regional de Medicina de São Paulo anunciou investigação às violações ao Código de Ética Médica, por “desrespeito ao juramento hipocrático”. O juramento de Hipócrates – grego considerado pai da medicina ocidental – simboliza a responsabilidade necessária ao exercício de poder que a profissão confere aos médicos. A jura une médicos entre si pelo ritual exclusivo, mas só tem sentido se uni-los também às demais pessoas, em dever cidadão de não propagar ódio pela comemoração indecente de morte alheia.

Para ser mais do que palavras recitadas, o juramento tem que servir para que a comunidade médica apure sua própria formação e previna o abuso de poder, especialmente entre os profissionais medíocres, propensos a usar o injustificável pretexto de divergência política para desumanizar pacientes.