Em sua nova coluna, a antropóloga Debora Diniz reflete sobre o início da queda do pacto narcísico de masculinidade que elegeu Bolsonaro

Debora Diniz

Publicado originalmente na Marie Claire

O pacto narcísico de masculinidade que elegeu Bolsonaro começa a cambalear. Os heróis o abandonam ou pestanejam. General Santos Cruz descreveu a política bolsonarista como de “fofoca”. O super-herói Moro foi ao Boteco do Ratinho para conversa fiada, mas no dia seguinte se expôs ao país no Senado Federal. Se Moro já era um sujeito pouco eloquente, as piscadelas involuntárias denunciavam o mal-estar da cena. Enquanto isso, o Senado Federal rejeitava a política de armas. Em uma metáfora pouco elegante, foi como uma coronhada no pescoço de Bolsonaro, quem usou dedos de menininha para metralhar inimigos imaginários na campanha. O sinal do desespero é que houve mais em um único dia – o mesmo corpo frágil que pedia arrego nas flexões de braço com o governador Doria é o que subiu a voz para chamar Jean Wyllys de “aquela menina fora do país”.

De fofoca à homofobia, o fio narcísico é o mesmo – sem resposta para as urgências que assolam o país, como desemprego ou reforma da previdência, a retórica de Bolsonaro é só uma: mover o circo da masculinidade. Nem todos os homens compartilham a tolice de armas para proteger propriedade ou de flexões de braço na calçada para cumprimentar outros machos. Muitos homens jamais cometeriam o crime odioso de homofobia. Ao contrário, a bolha narcísica de Bolsonaro é composta por uma minoria da masculinidade brasileira. São esses poucos que me interessam agora: homens barulhentos e ressentidos, alguns armados, outros à espera das metralhadoras prometidas, para ver se reconquistam a honra que jamais tiveram, porém imaginam ter sido confiscada pelas mulheres ou gays.

Nada mais insuportável para a bolha narcísica dos bolsonaristas que o desbanque de Moro, o super-herói de terno preto. O herói anticorrupção do país veste capa arco-íris, é casado com outro homem, tem dois filhos adotivos, fala português com o sotaque dos que aqui chegaram para ficar. Em um roteiro de ficção, a luta entre os heróis seria recusada pela doçura da esperança – David Miranda substituiu Jean Wyllys na Câmara dos Deputados, o mesmo que de capa vermelha cuspiu em Bolsonaro pela homofobia e desrespeito à memória dos torturados na ditadura. A sequência de novos heróis é imagem intolerável à bolha narcísica de bolsonaristas. Não é à toa que as milícias virtuais voltaram ao ataque: esbravejam e ameaçam, pedem a expulsão de Glenn do país, como fizeram com a imposição da pena de desterro a Jean ou a mim.

O horizonte do narcisista é limitado, por isso, diz o verso, “narciso é espelho”. Acompanhamos o desmantelo do projeto masculinista de governo: ele não move políticas de Estado, somente o pânico moral de rosa e azul, golden shower, mamadeira de partes baixas ou kit gay. Movia a exclusividade da pauta anticorrupção, um confisco doloroso do herói arco-íris que a moveu do gabinete do ex-juiz para o espaço público. Nossos heróis são muitos, coloridos e irônicos, escritores e faladores, incansáveis na resistência à bolha de machos misóginos e homofóbicos que temem pronunciar o nome de Jean, por isso o vocativo “menina”. Chamem-nos como quiserem, só saibam que quando se tira um do poder, retornamos em formato de bando. É melhor já ir se acostumando.