Sem liderança centralizada, porém com pautas políticas evidentes, centenas de anônimas se juntam para um manifesto estético contra os efeitos do patriarcado na vida cotidiana

Por Debora Diniz e Giselle Carino

Publicado originalmente no jornal El País 

“O estuprador é você”, gritavam meninas e mulheres em coro e coreografia. Os dedos apontavam o poder político do Estado chileno, os olhos vendados serviam de contraste à força da voz. Um batuque solitário definia o ritmo dos corpos. Centenas de meninas e mulheres se postaram no centro da Plaza Italia em Santiago do Chile para uma das mais espetaculares manifestações do feminismo global no dia de eliminação da violência contra as mulheres, 25 de novembro. O vídeo da performance noturna carrega o sublime kantiano: um poder sem limites, uma beleza sem comparação. Para Kant, o sublime estaria no horror da destruição, tal como ocorre numa tempestade violenta. Não por arrogância escolástica citamos Kant para uma performance de rua—as criadoras da manifestação são artistas, perseguem a estética como narrativa política.

 

LasTesis é o coletivo de mulheres artistas da cidade de Valparaíso no Chile. Como fazem os homens na literatura ou na filosofia, elas também “sobem nos ombros das gigantes” para a criação artística. São leitoras da feminista argentina Rita Segato para quem a violência contra as mulheres está entranhada no “mandato frágil da masculinidade”: o estupro seria um instrumento de restauração da ordem de mando masculina ameaçada pelas transformações sociais de gênero e sexualidade. Segato escreve sobre o feminicídio da cidade de Juarez no México, sobre a terra como metonímia da luta política de mulheres indígenas na Bolívia ou no Brasil, não dissocia o patriarcado do racismo colonial que persiste em nossos países. Como as criações subvertem as autorias, é preciso agora ler Segato tendo o coro de meninas e mulheres chilenas como prólogo à obra: “o patriarcado é um juiz, que nos julga ao nascer, e o nosso castigo é a violência que se vê”.

Não se consegue virar o rosto que mira o sublime, pois o evento nos paralisa. Nos termos de Kant, a matemática e a dinâmica explicam a incapacidade de resistir: o evento tem uma magnitude que absorve, e qualquer força é frágil para impor resistência. O sublime provoca o efeito de olhar fixamente sem piscar, pois é o corpo que encara. O que resta do sublime no indivíduo não é universal, assim como não ocorre com nenhuma experiência estética. Novas forças emergem depois da experiência catártica de encarar uma multidão de meninas em coro. Para nós, a alegria da criação é um sinal de como se denuncia a permanência entre passado e presente por um ajuste no tempo verbal do verso, “o estuprador era você, o estuprador é você”. Aos patriarcas, a ousadia da performance intimida, pois o sublime tem o poder de assustar por uma força que não se antecipa. Para os homens que governam pela força, talvez, o horror ao sublime possa agravar a misoginia —vivemos em uma das regiões violentas do mundo contra as mulheres, por isso o neologismo “feminicídio” persegue os versos da performance.

Há semanas o Chile vive manifestações nas ruas, com cenas de violência policial brutal que ecoam no autoritarismo militar que governou o país por décadas. Mulheres e meninas se uniram à performance de LaTesis e mostraram o poder dos ecossistemas contemporâneos. Sem liderança centralizada, porém com pautas políticas evidentes, centenas de anônimas se juntaram para um manifesto estético contra os efeitos do patriarcado na vida cotidiana. Os corpos e cantos das meninas desafiam dimensões ocultas sobre como gênero regula o espaço social: o coro do patriarcado tem o conforto da normalidade, opera pela falsa presunção de que há uma natureza imutável para a desigualdade de gênero. Não por acaso os versos provocam a dimensão estrutural e individual do poder patriarcal: assim como o macho abusador se protege pela cumplicidade do silêncio entre os homens da polícia, da justiça ou da religião, o Estado opressor se transforma no próprio macho abusador.

Não sabemos se todas as mulheres e meninas que performaram contra o Estado abusador se definiriam feministas. Talvez, as identificações importem menos para os efeitos do sublime político. A multidão encontrou-se por uma causa em comum: a certeza de que a vítima não é culpada do estupro (“e a culpa não era minha, nem onde estava, nem como vestia”). E, no meio da multidão, na primeira fileira, estava uma menininha. Ela não tinha os olhos vendados; estava ali para ver, ouvir e repetir. A ela e a todas que a encaramos com o espírito da alegria do sublime político, uma nova sociabilidade do feminismo é provocada pelo encontro—encará-la no meio da multidão é despertar a certeza de que a subversão do poder emerge do centro do patriarcado.