Os Cuidados devem se Adaptar ao Crescimento das Crianças Nascidas com Zika

por Amanda Klasing

Publicado originalmente na HRW

Maria Gabriela Silva Alves completa hoje dois anos de idade, mas não vai ter nenhuma festa, presente ou bolo para comemorar o seu aniversário. Gabi, como seus pais a chamam, sofre a síndrome congênita de Zika, e a sua família simplesmente não tem condições financeiras de arcar com uma festa.

Gabi é uma das milhares de crianças nascidas com síndrome congênita de Zika no Brasil nos últimos dois anos e meio. Tive a oportunidade de conhecê-la e a sua família no nordeste do Brasil enquanto fazia uma pesquisa para a Human Rights Watch sobre o impacto da epidemia de Zika. Aos 8 meses de idade, Gabi era tão pequena – e a sua mãe a segurava com tanto cuidado e amor – que chegava a comover. Voltei a vê-la em julho do ano passado, quando ela tinha um ano e meio. Tive o prazer de segurá-la nos braços sob o olhar amoroso dos seus pais, Carol e Joselito.

O Brasil não solucionou os já antigos problemas de direitos humanos que permitiram que a epidemia de Zika se intensificasse, deixando sua população vulnerável a futuros surtos e a outros graves riscos de saúde pública. Em maio de 2017, o governo declarou o fim da emergência para o vírus Zika – mas sua ameaça no Brasil permanece.

 

Após o nascimento da filha, Carol e Joselito estiveram sob os intensos holofotes da mídia, mas contaram com pouco apoio do governo. Os médicos não tinham – e ainda não têm –  certeza de como será a vida de Gabi. Apesar disso, o casal continua a buscar obstinadamente por serviços de apoio e cuidado à filha. Conseguiram uma nova cadeira automática para Gabi que facilita os seus movimentos. E depois de passarem quase metade da vida da filha tendo que se deslocar por longas distâncias para ter acesso aos cuidados de saúde necessários, conseguiram também o direito a consultas médicas no próprio município, com o transporte fornecido.

Mas essas conquistas não vieram sem custos ou sacrifícios. Para sustentar Gabi e o seu irmão mais velho, colocar comida na mesa e um teto sobre as suas cabeças, a família contraiu dívidas impagáveis. Embora Carol e Joselito recebam uma pequena contribuição financeira do governo, falta dinheiro até mesmo pra manter a família saudável; é impensável  comemorar o aniversário de Gabi.

Gabi e a sua família não são uma exceção. Embora as manchetes sobre a Zika tenham quase desaparecido, crianças por todo o Brasil e ao redor do mundo continuam a crescer e a lidar com a síndrome. Elas já não são mais bebês, e tanto elas quanto as suas famílias precisam de apoio e cuidados diferentes. Manter um emprego, comprar remédios caros e deslocar-se para centros urbanos para consultas médicas não são tarefas fáceis, ainda mais com tantas outras responsabilidades familiares agravadas pela Zika. As autoridades locais, federais e a comunidade internacional como um todo precisarão encontrar soluções para as necessidades de Gabi e de tantas outras crianças como ela, não só na área da saúde como também na educação e em relação a outras necessidades ainda desconhecidas.

Desejo a Gabi um feliz aniversário, e espero que ela e sua família desfrutem de boa saúde. Espero também que possam receber todo o apoio que merecem.