por Soraya Fleischer, Professora do Departamento de Antropologia/UnB

Publicado originalmente em MICROHISTÓRIAS

Era uma quinta-feira de manhã. Eu me encontrei com Simone e seu filho, Filipe, numa das clínicas que oferecem terapias de reabilitação às crianças com a síndrome congênita do vírus Zika no Recife, Pernambuco. Desde 2016, com o objetivo de conhecer as repercussões cotidianas da síndrome, tenho acompanhado um conjunto de mulheres que têm buscado tratamento e acompanhamento para seus filhos. Simone é sempre muito gentil quando eu volto ao Recife, ela permite que eu esteja com eles nas suas atividades rotineiras de cuidado, seja em hospitais, clínicas, balcões do Estado onde busca concretizar os direitos do filho.

Nesse dia, estive com os dois na sessão de fisioterapia e depois fonoterapia, que eram oferecidas em andares diferentes dessa mesma clínica. Depois da fisioterapia, esperamos um pouco na sala de convivência, um espaço que a clínica organizou para que as mulheres possam esperar com um pouco mais de conforto entre uma sessão e outra. Saímos por alguns minutos para fazer um lanche nas biroscas da esquina. Chegamos ao consultório da fonoterapia com alguns minutos de atraso. A terapeuta não estava na sala e Simone percorreu o corredor para encontrá-la. Estava conversando com uma colega e rapidamente retornou ao consultório.

A fonoterapeuta pega Filipe do colo da mãe, cuidadosamente lhe tira as calças, meias e botas. Somente de camiseta e fralda, a criança senta com a profissional sobre o tatame macio. Ela começa a lhe mostrar as bolinhas de plástico de cores vibrantes. Filipe se interessa muito por todas elas. Desde que eu o conheci, ainda em 2016, ele tem conseguido concentrar muito mais o olhar em objetos específicos e demonstra claramente a atenção: ele sorri, solta pequenos sons que parecem de satisfação, estica os braços e pende o dorso na direção dos objetos, tenta agarrar com as diminutas mãos. A terapeuta guarda algumas bolinhas, deixa menos delas à disposição do menino, dificulta a tarefa de concentração e manuseio. A cada vez que ele toca ou segura, a profissional reforça, “Bo-bo-bo-bola”. Quando ele consegue pegar ou jogar uma das bolinhas, ela aplaude e o congratula com entusiasmo. Quando ele leva o objeto plástico à boca, ela toma de volta imediatamente e diz “Não”. E explica, “Boca é para comer, para falar, para beijar, Filipe. Boca não é para comer a bola”.

Por muitos minutos, ela interage diretamente com ele. Depois, mais ao final da sessão, começa a falar com Simone. “Você tem que elogiar a ação dele para ele repetir com intenção. Ele está muito na fase oral ainda. Tem que passar o interesse para outros lugares, outros sentidos, como o tato, o olhar. Tem que começar a ter prazer com os olhos e a mãos, não só com a boca. Ele está precisando brincar mais, mãe. Você pode repetir a palavra várias vezes, em frases diferentes. Concentra na intenção dele, se ele falou chutou ou se falou tou, ótimo, reforça tudo isso. Ensina o modelo do que ele tem que fazer e vê se ele faz sozinho. Parabeniza depois que ele fizer certinho”. Simone ouve atentamente, concorda com tudo, lembra que tem tentado replicar em casa o que aprende ali com as terapeutas. Exibe sua adesão ao tratamento, tanto na clínica como em casa.

A terapeuta continua os exercícios, Filipe acerta várias vezes o que se espera dele, mas ainda utiliza da boca para interagir com a bola de vez em quando. A rotina terapêutica prossegue. De repente, a mãe, que continuava sentada perto da parede, lembra, “Semana passada, eu fui oferecer uma comida pra ele e ele disse não. Eu ofereci de novo, ele falou não de novo. Eu queria saber se ele estava mesmo dizendo não para a comida e acho que estava mesmo. Eu fiquei muito feliz”. A terapeuta sorri, concorda que é um exemplo significativo de avanço, de comunicação intencional. Simone quer dizer outra coisa, espera alguns segundos, encontra uma brecha e conta, “Sabe, gente,
depois, eu tive um sonho naquela mesma noite. Eu sonhei que ele me chamava de mamãe”. A terapeuta, sempre simpática com essa família, sorri novamente e concorda, “A gente quer é progresso mesmo, né?”.

Eu fico emocionada. Sorrio também, olho para Simone, ela me olha de volta. Mas acho que é algo a mais do que progresso ou avanço, essas duas palavras que sempre escuto ali pela clínica.

Como em qualquer pesquisa da Antropologia, convivendo de modo mais frequente e continuado com essas mulheres, vou tendo a chance de ver momentos em que ficam mais à vontade. Nos momentos mais públicos e oficiais, em que estão percorrendo consultas e terapias com os filhos, grande parte dos diálogos com as profissionais de saúde passa pela avaliação das atividades reabilitadoras. A criança está indo bem? Ela está realizando o que é esperado dela com aquele exercício? Nos últimos meses, é possível notar aprimoramentos? Avanço e evolução são duas palavras que ouço frequentemente pelos corredores e consultórios. As mulheres comparam as crianças que têm a mesma síndrome e a mesma idade; comparam o desempenho e dedicação das terapeutas em diferentes clínicas; comparam os efeitos e a eficiência dos medicamentos que são prescritos; compararam o envolvimento e o compromisso das outras mães com seus filhos. Esses são elementos que ajudam a formular uma ideia de “bom serviço de saúde”, “boa terapeuta”, “boa mãe de micro”.

Vejo tudo isso como prática corrente dos cuidados com essas crianças. É importante fazer avaliações para confirmar se o rumo está correto e se o investimento de tempo, recursos e expectativa em relação aos serviços está valendo a pena. As comparações vão balizando as ações tomadas todos os dias em prol dessas crianças.

Mas, quando a guarda está um pouco mais baixa, quando as nossas interlocutoras se sentem um pouco mais livres para simplesmente viverem minuto a minuto, é possível notar como há tantas outras questões em jogo. Claro que desejam ver os filhos comerem pela boca sem precisarem de sondas gástricas ou vê-los deixarem os colos e caminharem independentes pelo chão. Almejam o melhor para seus rebentos e esforçam-se diariamente para lhes oferecer o que conseguem encontrar ao redor dos serviços de saúde na Grande Recife. Esse momento com Simone e Filipe, contudo, me conectou com esferas bem mais discretas e menos visíveis da relação entre mãe e filho. O sonho de Simone passava também por outras facetas de afeto, vínculo, intimidade. O sonho parecia comunicar onde estava seu desejo. Não quer apenas ser reconhecida como mãe – como uma boa mãe de micro, como dizem – pelas colegas que lhe acompanham nos ônibus ou nas clínicas de reabilitação, nem pela sogra ou o marido, nem pelas vizinhas ou irmãs da igreja. Quer que o filho lhe olhe nos olhos, lhe identifique como uma figura próxima e de confiança, lhe chame pelo nome que lhes relaciona e que, nesse mundão de Deus, somente ele pode usar. Ela quer ser
percebida como mãe por Filipe.

Eu noto uma pressão coletiva sobre essas mães para que sejam assíduas, pontuais, comprometidas. Para que aprendam as técnicas reabilitadoras na clínica e reproduzam com frequência em casa. Devem dar os remédios prescritos, conseguir os leites especiais, manter as crianças asseadas e apresentáveis. A pressão é por serem mães exemplares ou assumirem o papel de “mãe” em tempo integral. Embora o sonho de Simone também tenha a maternidade como assunto, minha aposta é que falava de outra coisa. Não tanto dessa figura pública e respeitável de mãe, mas da figura íntima de mãe, que só pode ser construída na relação diária e minuciosa entre duas pessoas. Ela estava nos contando da expectativa por um reconhecimento específico, da consolidação de um laço específico, da expressão de um afeto específico. Ser chamada de mamãe era atingir um outro momento do relacionamento com o filho.

Claro, era também de progresso que ela falava. O sonho indica que ela sabe que Filipe não a chama pela alcunha que deseja, mas também aposta ser uma possibilidade futura e concreta. Além dos laudos, opiniões médicas, radiografias, esse sonho era outro tipo de informação ou atestado. Minha hipótese é de que, em Simone, desejo e esperança estavam dando um recado. O futuro dessas crianças também é assim construído: pela matéria diáfana do mundo dos sonhos.