A correspondência dela com a antropóloga Débora Diniz se transformou em livro a ser lançado nesta terça-feira em Brasília

por Gabriela Vinhal

Publicado originalmente no Correio Braziliense

Uma em cada quatro mulheres que estão detidas em unidades prisionais tem passagem pelo sistema socioeducativo para menor infrator. Segundo dados mais recentes, de 2016, havia, nas unidades de atendimento, 26.450 jovens. Do total de internados, 25.929 estavam em cumprimento de medidas de internação, internação provisória e semiliberdade, e 521, em outras modalidades de atendimento (atendimento inicial e internação-sanção). O tempo máximo de estadia é de três anos, contudo, não é decidido previamente, como nos casos de detentos adultos.

Na unidade socioeducativa mista de Santa Maria, 40 meninas estavam apreendidas sem saber por quanto tempo ficariam reclusas. Vinte delas eram temporárias. O vácuo sobre o futuro, a falta de esperança e a solidão as acompanhavam durante dias e noites que se arrastavam atrás das grades. Sonhar passava a ser um privilégio. E não foi diferente com Talia*.
“Me chame de Talia, a filha de Zeus. Escolhi esse nome porque adoro mitologia grega. Não tem muitas meninas aqui na internação, e quase todas me conhecem. Eu não quero ser reconhecida, eu só quero ser ouvida. Essa é a minha voz. Uma voz de menor infratora”. É assim que Talia, uma das internas da unidade, se apresenta no livro Cartas de uma Menina Presa, que assina com a antropóloga Débora Diniz, com lançamento previsto para 28 de agosto, em Brasília.
A obra reúne a troca de cartas entre a pesquisadora e Talia, uma das três adolescentes com as quais manteve contato por correspondências durante a internação. O Correio conversou com a escritora, que passou 13 meses na unidade com a missão de entender o motivo de tantas jovens voltarem para o sistema quando obtinham liberdade. Só não esperava encontrar o fascínio das garotas pela escrita, pela literatura e pelo estudo.

Assim que chegou à unidade, Débora acompanhou as quatro equipes de plantão em ação, até que definiu com qual ia estar. Num local com jargões próprios, ficou conhecida entre as meninas por “psicopata”, porque não tinha medo de conversar e estar com elas. Tampouco com os meninos internados. “Queria ganhar a confiança de todos”, explica. Contudo, já no fim do experimento, passou a ser chamada de “mãe das letras” -referência à “mãe do crime”, figura “materna” que auxilia as jovens na criminalidade – por incentiva-las a ler e a escrever na unidade.

Antes de começar o estudo, a antropóloga ensaiou a chegada, estudou a cor da roupa ou se pintaria as unhas. Resolveu ir de preto, com cabelos presos e sem esmalte nas mãos, pela discrição. “Mas logo repararam que não era um preto qualquer. O sapato era de marca, os cabelos, bem cuidados”, conta, como se fosse uma tolice tentar esconder privilégios e a barreira enorme da sociedade que as separa.

O interesse pelas cartas surgiu naturalmente. A ideia de Débora era apenas fazer um formulário típico de pesquisa, ao qual já está acostumada. Mas as visitas nas celas passaram a ser muito curtas. As meninas queriam mais tempo para serem ouvidas. Quando souberam que estavam frente a uma pesquisadora, tiveram curiosidade sobre o trabalho dela. A vontade de escrever surgiu quando souberam das opiniões da antropóloga sobre o aborto, luta na qual Débora é militante, dentro e fora da vida acadêmica. “Queriam fazer uma redação para argumentar o porquê de serem a favor ou contra a minha opinião. E, de redação em redação, começaram a desabafar sobre a reclusão e sobre como era a vida delas antes e depois do crime”, diz.

A maioria delas foi apreendida por tráfico de drogas. De maneira geral, segundo a escritora, todas já haviam se relacionado com alguém que estava inserido no crime — pai, mãe, tia ou companheiro. Largavam a escola e buscavam a tentativa de mudar de vida. Não enxergavam outras oportunidades. Atenta, Débora usava um gravador para registrar as histórias.

O ócio tomava conta da rotina das meninas. Sem televisão, buscavam no livro escape para uma nova realidade. A maioria das obras lidas por elas era romance. Mas a variedade ofertada era escassa. Foi quando começaram a pedir à antropóloga novos exemplares. Como um “clube do livro”, uma vez escolhiam o que queriam ler e, na semana seguinte, Débora decidia. Entre os livros lidos, estão Crime e Castigo, Carandiru, O Prisioneiro, Orange is The New Black, A Casa dos Mortos, O dono do Morro,  As prisioneiras. O único negado pela coordenação da unidade foi 50 Tons de Cinza. “Muitas tinham 13 anos. Realmente, não era o mais recomendável”, conta, com risadas.

A situação de internos

» Dos 26 mil adolescentes e jovens incluídos no sistema, em 2016, 18,5 mil estavam em internação (70%), 5,2 mil em internação provisória (20%) e 2,2 mil, em regime de semiliberdade (8%).
» Os estados com maior número de meninos e meninas nessa situação eram São Paulo (9.572), Rio de Janeiro (2.293), Minas Gerais (1.964), Pernambuco (1.615) e Rio Grande do Sul (1.348). A Região Sudeste era responsável por mais da metade (57%) de adolescentes e jovens atendidos.
» Os jovens estavam distribuídos em 477 unidades de internação, internação provisória e semiliberdade. O Sudeste concentrava 218 instalações desse tipo (45,7%), seguido pelo Nordeste, com 96 (20%); pelo Sul, com 74 (15,5%); pelo Norte, com 49 (10%) e pelo Centro-Oeste, com 40 (8,4%). Do total, 419 eram exclusivamente masculinas, 35 eram somente para mulheres, e 23, mistas.
Fonte: baseado no Levantamento Anual do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) de 2016, da Secretaria Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente do Ministério dos Direitos Humanos (SNDCA/MDH).

Uma “prisão de papel”

Tanto em penitenciárias como em unidades de internação, a caneta só é permitida sob supervisão e por um tempo curto. Se afiada, pode se tornar uma arma e ameaça a segurança do local. A solução apareceu em São Francisco, nos Estados Unidos. Débora viajou à cidade para comprar canetas flexíveis, que foram aprovadas pela diretora do local. “Eu comprava blocos e canetas. Conforme acabavam, me devolviam e eu repunha o estoque. Assim, a troca de cartas se tornou cada vez mais frequente”. Além da escrita, uma das garotas infratoras tinha o fascínio pela arte. Pediu telas e tinta, e passou a fazer quadros. “Chamei uma aluna da Universidade de Brasília, que foi até lá ensinar algumas técnicas”, pontua.
Três jovens que trocaram cartas com Débora foram liberadas. Duas delas fazem faculdade de psicologia e serviço social no Iesb — são bolsistas. Além dissso, estão empregadas. Talia, que também havia conseguido uma bolsa, não resistiu ao sistema. Dois meses após deixar a unidade — e completar 18 anos — foi presa. Grávida, pegou a pena de sete anos de reclusão. Com o bebê nos braços, entrou com um pedido para o semiaberto, devido a decisão do Conselho Nacional de Justiça, no início deste ano. O dinheiro arrecadado com a venda dos livros será todo dela, uma ajuda com as despesas da criança.
Talia foi a vencedora da melhor redação de um concurso promovido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) em homenagem ao Dia dos Professores. Na competição, adolescentes tinham de escrever cartas ou produzir vídeos explicando o que fazia de seus professores heróis. À época estudante do ensino médio, homenageou Débora no texto. “Em um lugar que só tem grades, ela chega com livros nas mãos. Toda frágil, passa pelo corredor pesado de maldades, para na porta do meu quarto e abre um sorriso que reflete um futuro cheio de promessas”, diz um trecho do texto.

*Nome fictício em obediência ao Estatuto da Criança e do Adolescente

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  • Livro: Cartas de uma menina presa
  • Autora: Débora Diniz e Talia
  • Data: 28/8
  • Horário: 19h
  • Local: Café Objeto Encontrado
  • Entrada gratuita
  • Preço sugerido do livro: R$ 30