Projeto desenvolve ações de educação em direitos humanos: Pós-Graduação lato sensu em Direitos Humanos Esperança Garcia, Campanha Esperançar: vidas negras importam e mulheres negras precisam ser escutadas; Projeto Memória e Esperança; e incentivo à visibilização e publicação de autoras

Ultrapassar o estágio de entender os direitos humanos apenas como um discurso e transforma-lo, de fato, em uma prática concreta e cotidiana na sociedade, é o que moveu, em Teresina, a fundação do Instituto Esperança Garcia na última sexta-feira (29). Agora, de forma contínua, o projeto atuará com intuito de promover educação em direitos humanos baseado pela compreensão do mundo através de olhares feministas, antirracistas, contracolonialistas e anticapitalistas.
Não por acaso, o nome de Esperança Garcia é usado para dar vida ao projeto. A escravizada piauiense que há mais de dois séculos escreveu uma carta na qual denunciava violências por parte do feitor da Fazenda Algodões, Sul do Piauí, se tornou símbolo para a luta por justiça. Há dois anos, Esperança foi reconhecida como a primeira advogada piauiense e, deste então, inspira a efetivação de espaços e projetos que mantém sua história combativa ainda mais viva.
Para Andreia Marreiro, presidenta do Instituto, ter Esperança Garcia como símbolo é uma forma de lutar pela memória, bem como pela transformação da sociedade. “Fui me dando conta que não há nenhuma possibilidade de mudança de mundo se a gente não se conecta às nossas raízes. Aqui, eu decidi, imbuída desses encontros que compartilho com tantas e tantos, que precisávamos criar um espaço para sobreviver e sentipensar um projeto de educação que pudesse romper com o que nos é institucionalmente colocado. Foi quando surgiu o projeto sonho da Pós Graduação em Direitos Humanos Esperança Garcia e, agora, também o instituto que abarcará esse e outros sonhos”, explica.
Além de realizar a aula inaugural da quarta turma da pós graduação lato sensu em Direitos Humanos Esperança Garcia, o Instituto também encaminhará ações que acontecerão em comunidades, instituições, empresas e demais espaços que acreditem na transformação do mundo por meio da educação.
O projeto também está, em parceria com a Defensoria Pública do Piauí, dando continuidade à Campanha Esperançar: vidas negras importam e mulheres negras precisam ser escutadas, que atua para estimular a leitura e conhecimento de autoras negras.
“Um terceiro caminho é, ainda, poder visibilizar as produção das professoras, de produções científicas, como fizemos aqui com o lançando do livro da professora Gabriela Sá, “A Negação da Liberdade: Direito e Escravidão Ilegal no Brasil Oitocentista (1835-1874)”, e visibilizar e publicar outras obras feitos por outras professoras e estudantes”, acrescenta Andreia Marreiro.
Lançado na fundação do Instituto Esperança Garcia, o livro da professora e pesquisadora Gabriela Barretto Sá, apresenta a necessidade visibilizar que, dentro da escravidão brasileira, aconteciam inúmeros casos de ilegalidades. Entre os mais recorrentes e imponente deles estavam os casos de escravização ilegal de pessoas livres.
“Conceição Evaristo nos lembra que nossa escrevivência não deve ser para ninar o sono dos senhores da casa grande, ela deve servir para incomoda-los em seus sonhos injustos. E é por esse lema que eu pauto minha trajetória, minha pesquisa, minha escrita. Por isso, o objetivo deste livro é incomodar o sono dos injustos que continuam reproduzindo situações de racismo e negação de liberdade na nossa sociedade”, destaca Gabriela.
Fundação
No evento de lançamento do Instituto, que aconteceu no auditório da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PI), participaram, também, personalidades e parceiros do Instituto como Maria Sueli Rodrigues, ex-presidenta da Comissão da Verdade da Escravidão Negra da OAB/PI e uma das organizadoras do Dossiê Esperança Garcia; Carmen Ribeiro, a primeira Yalorixa advogada do Piauí; Karla Andrade, defensora pública do estado do Piauí; Samaria Andrade, editora da Revista Revestrés, Camila Nery, conselheira da OAB e membros de movimentos sociais e de assessorias jurídicas universitárias populares.
“Lembro do poeta Manoel de Barros, que nos fala que a palavra amor está quase vazia, não tem gente dentro dela e por isso ele quer construir uma ruína para a abrigá-la. Inspirada pelo poeta, digo que a palavra Direitos Humanos está quase vazia de gente dentro. Nós precisamos enchê-la de gente, de sonhos, de cheiro, de dores, de alegrias, para que a diversidade que compõe a nossa integralidade possa encontrar abrigo neste mundo”, finaliza a presidenta do instituto Esperança Garcia, Andreia Marreiro.