[vc_row][vc_column width=”1/3″][/vc_column][vc_column width=”2/3″][vcex_navbar menu=”6″ button_color=”black” font_weight=”” hover_bg=”#c7aae2″][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column][vc_single_image image=”941″][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]E se o menino fosse seu filho?, de Debora Diniz.
Publicado originalmente por Correio Braziliense, em 4 de julho de 2016.

Em 2015, puxei um plantão na unidade socioeducativa para meninas infratoras no Distrito Federal. Apareci por ali para fazer pesquisa, mas terminei convivendo com gente desconhecida. Fiz amizades de todo jeito; uma delas foi com quem eu antes achava ser gente bandida. As unidades socioeducativas já foram chamadas de reformatório ou Febem; hoje, o nome inventado é cadeia de papel: nem tanto cadeia, mas nem em sonho escola. Conheci todas as meninas, absolutamente todas, que passaram por ali em 2015. Provisórias são aquelas que permanecem entre as grades por um período de até 45 dias – caberá ao juiz decidir se o malfeito é grave para medida de internação longa, de seis meses a 3 anos. Sentenciadas são as infelizes que amadurecem entre celas e grades. Com as sentenciadas peguei sentimento.
Olho para o menino de 10 anos morto pela polícia de São Paulo e volto para as meninas que conheci. Ouço o brado raivoso de quem pede mais prisão, sentença eterna, ou mesmo extermínio. Sei o quanto as pessoas aqui de fora têm medo daquelas que não querem mais ver, pois ultrapassaram a fronteira do inferno e é lá que deveriam permanecer. Uma cadeia na adolescência é desgraça para o futuro: mas o futuro de todos nós, não só de quem vive entre grades. Antes de ter visitado a cadeia de adolescentes, passei tempo longo no presídio feminino – ali, descobri que uma em cada quatro presas em regime fechado havia passado por medida socioeducativa de internação na adolescência. Uma em cada quatro tinha conhecido a prisão ainda menina.

Antes que me acusem de defender gente bandida, peço licença para me explicar. Não há isso de bandidagem natural, ou maldade no sangue. Tudo o que somos para o certo ou para o errado é da ordem do vivido, é parte daquilo com que pudemos conviver quando ainda éramos crianças miúdas ou quando viramos gente em um mundo desigual. Não peço que exercitem a compaixão, esse é um sentimento tolo para quem quer mudar desigualdades, mas peço que exercitem o espanto: um menino de dez anos perambulava pela rua, era engraxate no aeroporto, já tinha arma ou usava drogas. Isso é espantoso.

Foi esse o espanto que vivi ao conhecer as meninas entre trancas. Foi essa angústia que vivi ao acompanhar o julgamento das meninas que conheci no reformatório e que, agora, estão na cadeia de mulher adulta. De todas com quem convivi no tempo do plantão o destino se resume a três possibilidades: prisão, cemitério ou gravidez. Há combinações entre as reduzidas chances, é verdade: ir para a prisão grávida e morrer em uma das saídas. Sempre há uma ou duas delas com história de fadas para acomodar nossas crenças de que “se ela quiser mesmo, mudará de vida”. Não há mudança individual quando o crime é parte da economia da vida – quase todas as meninas que conheci eram traficantes de rua, e, talvez por isso, as que se salvam pelos contos de fadas não eram comerciantes da ilegalidade, mas matadoras.

O fatalismo de que não há saída é ruim para todos nós. Faço questão de repetir: cuidar de quem vive na bandidagem menina é garantir o futuro de todos nós. As explicações sobre o que aconteceu na vida do menino de dez anos morto pela polícia estão disponíveis, mas não me satisfazem. A razão? Porque as perguntas certas não foram feitas – por que este menino saiu da escola e não nos causou espanto? Será mesmo que algum dia foi à escola? Por que a rua era lugar feliz para alguém aos oito de idade? Ele não sentia medo? Como terá sido a primeira batida policial? Será que sofreu violência?

Uma forma de nos provocar empatia é sempre imaginar “e se fosse o meu filho?” Sim, as elites dirão: “meu filho de 10 anos jamais estaria na rua”. Pois é, esse deve ser nosso ponto de partida. O menino não é meu filho, nem de outras mulheres que passarão por aqui com a autoridade do texto. O menino é sempre o filho da outra, sem nome, distante e desconhecida. Não acredito que o justo se mova pelo pensamento familista ou egoísta “do meu filho”, mas dado o nosso estado coletivo de apatia, recorro até mesmo a argumento de que desconfio para exercitar o espanto – e se o menino fosse seu filho?; e se você fosse a mãe ou pai dele?[/vc_column_text][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column][vcex_social_links social_links=”%5B%7B%22site%22%3A%22youtube%22%2C%22link%22%3A%22https%3A%2F%2Fwww.youtube.com%2Fchannel%2FUCLEnSx2zVwo3KPpCU5h64_w%22%7D%2C%7B%22site%22%3A%22facebook%22%2C%22link%22%3A%22https%3A%2F%2Fpt-br.facebook.com%2FAnisBioetica%22%7D%2C%7B%22site%22%3A%22twitter%22%2C%22link%22%3A%22https%3A%2F%2Ftwitter.com%2Fanis_bioetica%3Flang%3Dpt%22%7D%5D” style=”minimal-rounded” align=”right” size=”20″ width=”30″ height=”30″][/vc_column][/vc_row]