Adriana Izel e Mariana Niederauer

Publicado originalmente no Correio Braziliense

A pesquisadora e antropóloga Debora Diniz é um dos nomes de referência no mundo quando o assunto é a luta pelos direitos das mulheres. Há 20 anos, ela criou a Anis — Instituto de Bioética, Diretos Humanos e Gênero, organização voltada para a pesquisa e assessoramento de estudos relacionados aos direitos fundamentais das mulheres. Em 2014, trouxe à tona o debate sobre a descriminalização do aborto de fetos anencéfalos. Dois anos depois, foi citada na lista dos 100 pensadores globais pela revista Foreign Policy e, no ano seguinte, ganhou o Prêmio Jabuti pelo livro Zika: Do sertão nordestino à ameaça global.

Momentos esses que ela vivenciou em Brasília, cidade que foi forçada a deixar no ano passado após sofrer ameaças de morte devido à militância relacionada às questões de gênero. “Tivemos que deixar o país. Não estava nos nossos planos de maneira alguma. Foi integralmente uma saída de todas as nossas coisas. Foi uma coisa muito violenta. Mas eu não podia colocar em dúvida a integridade das outras pessoas”, afirma.

Dos 49 anos, 35 foram em Brasília. Natural de Maceió, Debora viveu no Rio de Janeiro e em Recife antes de chegar à capital federal, aos 14 anos. Cresceu na Asa Norte e estudou na Asa Sul, em uma adolescência vivenciada na W3, ao som da Legião Urbana, nas sessões do Cine Karim (112/113 Sul) e em busca de livros em uma importante livraria localizada no Conic. “As lembranças da minha adolescência em Brasília são as mesmas dessa geração, com uma vida que existia intensa nas quadras.”

Debora Diniz costuma dizer que sua trajetória se confunde com a da cidade e, principalmente, com a da Universidade de Brasília (UnB). Toda a vida acadêmica da pesquisadora foi galgada lá. Na universidade, gradou-se em ciências sociais, fez mestrado e doutorado em antropologia, viajou para o Japão com uma bolsa de estudos e depois se tornou professora da Faculdade de Direito. “Eu me considero um produto de Brasília. A minha história também é a da cidade”, afirma. “É a vida com a universidade que me deu uma visão muito particular do que é a vida em Brasília”, completa.

Apesar de ter crescido no Plano Piloto, a alagoana aponta que a experiência na UnB foi o que lhe permitiu vivenciar as diferentes características da vida candanga. “Consegui conhecer a vida de mulheres na cadeia, na Colmeia. Esse mundo também voltou para perto de mim. Foi a UnB que me permitiu ter egressas do sistema socioeducativo trabalhando comigo. Até onde eu sei, foi a primeira vez que o CNPq teve estudantes socioeducativas trabalhando com pesquisadores. E isso é a cara da UnB, um espaço que reconhece os sistemas de segregação e busca formas de reparar, de dar igualdade. Isso tudo faz parte da minha trajetória acadêmica em Brasília.”

Futuro
O distanciamento forçado da capital federal não faz com que Debora Diniz se afastasse da cidade. Pelo contrário, ela deseja um futuro muito melhor para o quadradinho, que se aproxime da missão quando a cidade foi criada. “Que seja uma verdadeira cidade, com um projeto original mais igualitário, o que nós vivemos cada vez mais é uma divisão geográfica social. Que Brasília seja capaz de viver o seu projeto com maior liberdade, com maior encontro entre as comunidades, não apenas no DF, mas no país inteiro. E que ela seja exemplo de uma cidade que foi planejada e desenhada para uma boa vida.”