Texto publicado no portal Justificando

 

Uma tragédia mata pessoas — foi assim em Paris e em Bento Rodrigues. A desgraça chega sem pedir licença, pode ser hora de festa ou de comida na casa. Em Paris, as pessoas morreram ao som de música ou com gosto de café; em Bento Rodrigues, Keila Fialho preparava o jantar. Dela, ouvi história da tragédia de lama e imaginei a longa madrugada em que não sabia se o barulho das pedras e árvores indicavam se o rio descia ou subia rumo ao esconderijo no alto de um morro. Fiz força para imaginar a mulher que narrava a tristeza da perdição. Queria deixá-la para sempre na lembrança — na minha e na sua —, pois o que escutei dela é o resumo do que faz a tragédia na intimidade, “a coisa mais valiosa era a foto de minha mãe”. A foto foi perdida, a mãe também, pois Keila foi menina órfã aos nove meses. A mãe morreu de Doença de Chagas aos 23 anos, um mal típico da pobreza, do mundo rural e esquecido do Brasil. Peço que escutem a voz de Keila antes de seguir o que escrevo.

Não quero aqui comparar dores ou sofrimentos, tragédias ou acidentes. Só queria falar mais de Bento Rodrigues do que de Paris — para a cidade iluminada do mundo, há presidentes, exércitos e juízes de muitos cantos; para Bento Rodrigues, uma lama que afoga passados e gentes. Não houve acidente natural em Bento Rodrigues; houve tragédia anunciada por exploração e descaso contra quem vive em vilarejo de difícil localização no mapa. Faça como eu, busque Bento Rodrigues no Google Earth: as imagens são de lama. Muita lama e palha. Não há mais cidade e, diferente de quem aproxima a lama apressada da onda gigante que assombrou Fukushima, minha memória fotográfica é outra: as fotografias de Yosuke Yamahata horas após a bomba atômica em Nagasaki. Há só carcaça do que antes foi cidade e genealogias.

Acreditem, não é estética do exagero — barragens rompidas comparadas a bombas devastadoras. As imagens são como cutucões de realidade, mas foi mesmo a melancolia de Keila que me fez aproximar os dois tempos. Keila perdeu tudo, mas a imagem da mãe que guardava como preciosidade da lembrança é irreparável. É isso que a exploração brutal faz: ignora detalhes cotidianos e sensíveis da vida, abre um portal de lama e o descreve como “desastre natural”. Não há nada de natural na tragédia de Bento Rodrigues. Ela foi anunciada e tem nome: o capitalismo transnacional que destrói as árvores e os rios, ignora populações ribeirinhas e trabalha com governos que oferecem liberação de direitos trabalhistas como solução para o desamparo. Poucos dias depois da tragédia, Keila angustiava-se: sem a foto, não conseguia mais recordar-se do rosto da mãe que nunca conheceu.

Repito o óbvio: é preciso muito mais do que isso. Deve-se uma cidade a essa gente, cuja memória foi perdida. Keila perdeu a casa, salvou o sogro e a avó, catou os filhos como pôde. Trabalhava em uma cooperativa de mulheres produtoras de geleia de pimenta. Para o povo de Bento Rodrigues, não adianta declarar guerra ao capitalismo, como fez a França contra o terrorismo, e não porque esse seria um brado perdido, mas porque é um monstro distante e despersonificado para amparar o mundo de necessidades dos 600 habitantes da cidade enlameada. Desgraçadamente, Keila precisa da empresa que destruiu sua casa para reconstruí-la, pois a cooperativa de geleia era mantida pela Samarco. Só um egoísmo financeiro desenfreado descreveria a tragédia da barragem como o 11 de setembro para o negócio da mineração: esse foi o texto dos empresários das barragens. O personagem dessa história trágica não deve ser o capital, mas as vítimas: gente com rosto e saudade, como Keila. É a elas que o dinheiro do minério, o governo dos direitos ou a solidariedade dos generosos deve se mover para devolver sentidos à sobrevivência.

Debora Diniz é antropóloga, professora da Universidade de Brasília, pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética e autora do livro “Cadeia: relatos sobre mulheres” (Civilização Brasileira). Este artigo é parte do falatório Vozes da Igualdade, que todas as semanas assume um tema difícil para vídeos e conversas. Para saber mais sobre o tema deste artigo, siga https://www.facebook.com/AnisBioetica.

Autor: Debora Diniz