por Camila Appel

Publicado originalmente na Folha de S. Paulo

“ Date: 20-09-006

A QUEM INTERESSAR POSSA:

MEU NOME: SOLITÁRIO ANÔNIMO

NÃO TENHO FAMILIARES NEM PARENTES NESTA REGIÃO DO PAÍS”

O curta metragem documental “Solitário Anônimo”, de 2007, retrata um homem que foi para uma pequena cidade do interior de Goiás com o objetivo de jejuar até morrer.

Ele é encontrado quase pele e osso, com um bilhete (descrito acima) no bolso e afirmando que, de acordo com a Constituição brasileira, ele tem o direito de morrer. Foi direcionado ao hospital, onde tudo mudou. Nas mãos da equipe médica, ele é obrigado a receber alimentação artificial. Ele tenta, em vão, fazer com que as enfermeiras desistam do que ele chama de uma “violência”.

Assistir essa cena da alimentação forçada é angustiante. Eu entendo o ponto de vista da enfermeira, que foi educada, ou mesmo condicionada, a lutar pela vida a qualquer custo, e vê a morte como uma derrota. Mas aquele homem, um aparente indigente, sabia muito bem o que estava fazendo. Só não conseguia ter forças para explicar, para argumentar, e talvez nem achasse que devesse. Ele apenas diz: “eu não quero isso. Me deixem em paz. Me deixem morrer em paz”. Uma enfermeira chega a dizer: “vamos lá seu José,” com um nome genérico, achando graça. A outra manda: “engole a sonda, engole. Faz que nem você tá bebendo água”. Ele retruca: “Que violência”. “Selvagem”. “Selvageria”. E fala que vai tirar todos aqueles fios presos a ele. Elas riem.

Não é engraçado.

Não é leviano.

Nossa equipe de saúde está acostumada a forçar tratamentos goela abaixo. O imperativo se esconde atrás do juramento de Hipócrates. Médicos aprendem que não devem fazer mal ao próximo, como se esse tipo de atitude não fosse uma ofensa. Autonomia não passa de um conceito abstrato.

Segue-se o seguinte diálogo:

“Eu quero morrer em paz”.

“Vai morrer de fome, é?”

“Vou morrer do jeito que eu quiser”

“Mas a vida é tão boa. Por que você tá querendo morrer?”

“Isso não é problema de vocês, não”.

Aquele homem foi, por ordem judicial, alimentado e medicado no hospital por 5 meses. A sedação o deixava com um aspecto de zumbi, reforçando o estigma de ser alguém incapaz de tomar decisões.

O moribundo virou animal de circo, com direito a câmera na cara e repórter invadindo seu quarto. Em uma cena, o âncora de um programa pergunta à jornalista em campo, plantada na frente da cama do homem, de costas a ele: “Lourdes, você conseguiu arrancar o nome desse senhor?”. O arrancar grita nos meus ouvidos. Pode ter sido sem querer.

Esse homem, que chama o futuro de hipótese, o presente de real, e o passado de um monte de lixo, acaba ganhando uma identidade. Ele é formado em direito e filosofia pela Universidade de Brasília e é fluente em cinco línguas. Penso que, talvez, pudesse concordar com o filósofo Albert Camus, que diz em “O Mito de Sísifo”:  “só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia”. Camus também dizia que se matar é uma espécie de confissão: “confessar que fomos superados pela vida ou que não a entendemos”.

O suicídio é uma questão séria que deve ser tratada como um problema de saúde pública. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), ele é possível de ser prevenido em 90% das vezes. O senhor desse filme pode pertencer a esses outros 10%. São os que decidem morrer não como consequência de um distúrbio mental grave, mas por uma decisão consciente. Na minha opinião, eles não devem ser vistos como uma derrota do “sistema”.

É genuíno nosso conflito diante os que escolhem não mais viver. Apreciamos a vida, ela é vista como um presente. Ou como um fardo necessário, mas mesmo assim divina. Não é fácil entender que alguém possa ter o direito de desejar a morte sem que essa vontade seja vista como um sintoma de um distúrbio mental.

Quando eu assisti esse filme, a pergunta que saltou foi justamente essa: querer morrer é necessariamente um distúrbio? Essa pergunta fica ainda mais forte quando é relacionada a pessoas mais velhas, consideradas pela sociedade como incapazes de decidir sobre sua própria vida.

A antropóloga Debora Diniz, roteirista e diretora do filme, disse ao blog que não se trata de um filme só sobre a morte, ele é também sobre o não lugar da velhice. Em mais de um momento, suspeitaram que ela filmava à revelia do senhor, que nos olhos da sociedade, era alguém sem capacidade de discernimento, sem capacidade de fazer escolhas, por ser velho. Por isso, o filme reforça esse estigma, essa falta de confiança que temos nos chamados velhos.

Debora afirma que mostrava todas as imagens capturadas a ele, recebendo seu constante consentimento. Em certo momento, ele rejeitava conversar com a equipe médica e se abria somente com ela. Ele parecia entender a importância de seu pedido ser compartilhado com sensibilidade. Após os 5 meses do tratamento forçado, ele dá um depoimento pungente a ela, com lucidez extrema.

A única ressalva que esse senhor fez ao ver o filme, foi pedir para retirar a imagem que mostrava a placa de identificação de sua cama hospitalar com seu nome, quando descobriram sua identidade. Ele não queria ser identificado, porque não achava que tinha mais uma identidade. Chegou a rasgar todos os documentos antes de partir para esse roteiro do final da sua vida, escrito por ele, mas impedido de ter sido levado a diante.

Ele chamava esse fim de um processo natural, já que as pessoas param de se alimentar quando estão próximas da morte. Uma reação normal a isso nos hospitais é o uso da sonda para alimentação artificial. Em muitas instituições, chegam a amarrar a pessoa à cama, para que não arranque os fios que descem pelo nariz.

Debora conta que ele nunca usou a palavra suicídio. Se referia, apenas, a um “processo natural de morte”. Debora também comentou que aquilo fazia parte de um acordo familiar. Quando sua identidade foi descoberta e Debora teve contato com seus filhos, que eram ao redor de uns 8, ela pediu autorização para continuar a filmagem. A resposta me parece surpreendente: um dos filhos disse que a decisão era inteiramente do pai.

Esse “solitário anônimo” tomou uma decisão consciente e gostaria que ela tivesse sido respeitada. Ele afirmava: eu tenho o direito de morrer. Fica, para nós, a angústia de conviver com uma resposta facilmente dada em nosso nome: não tem. Os médicos não permitem, o Estado não permite e a palavra autonomia segue como um conceito abstrato que nem chega a ser discutido.