[vc_row][vc_column width=”1/3″][/vc_column][vc_column width=”2/3″][vcex_navbar menu=”6″ button_color=”black” font_weight=”” hover_bg=”#c7aae2″][/vc_column][/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text]“Para as mulheres com zika, o pré-natal é uma sentença”, de Aline Takashima.
Publicado por M de Mulher em 6 de setembro de 2016.

A antropóloga e pesquisadora Debora Diniz percorreu muita terra de chão árido para acompanhar de perto o drama das mulheres grávidas afetadas com zika. Da sua pesquisa nasceu o livro Zika: do sertão nordestino à ameaça global. A autora conta a história a partir do olhar nordestino – região que fez suas primeiras vítimas e também encontrou respostas fundamentais para uma infecção até então sem cura.

Como testemunha de uma epidemia, ela relatou a rede de solidariedade e união que se formou entre as mães de bebês com microcefalia, os casos de mulheres que omitiam os sintomas da doenças, na tentativa de escapar do horror do zika na gravidez, e a angústia de um pai de gêmeos, um dos quais é considerado o “paciente zero”.

A autora revelou os bastidores das pesquisas, as divergências entre os cientistas e o preconceito sofrido por médicos do Nordeste. Debora descreve a trajetória da doutora Adriana Melo, finalista do Prêmio CLAUDIA pela categoria Ciências, responsável por comprovar a relação entre infecções por zika e as malformações em bebês. “Desde cedo [Adriana Melo] aprendeu a escutar a sabedoria das mulheres grávidas”, descreve em seu livro.

Conversamos com ela sobre a publicação:

Divulgação

Páginas: 192
Preço: R$ 29,90
Editora Civilização Brasileira / Grupo Editorial Record

O que a motivou a percorrer o Nordeste, acompanhar as mulheres grávidas e médicos e escrever o livro sobre o vírus zika?
Debora Diniz: Uma avaliação de que sabia muito pouco do zika no Brasil. Desde a história do zika, da doença, até o fato de que muitas pessoas não acreditam que uma mulher infectada pelo zika durante a gravidez pode ter risco. O que me motivou foi toda a desinformação que estava circulando e também uma vontade de esclarecer o tema.

As histórias que você conta são dramáticas e exigem muita sensibilidade. São de mulheres nordestinas com poucos recursos. Foi fácil para você ganhar confiança dessas mulheres?     
DD: As nordestinas são contadoras de histórias. Essa é uma característica cultural do Nordeste e é mais forte ainda entre as mulheres. Apesar de eu também ser nordestina, eu não era reconhecida por isso. Desde o sotaque diferente, os anos que vivo fora dali, a minha apresentação corporal, a minha forma de falar… Então como foi me aproximar delas? Foi com uma escuta genuína. De dizer: “eu quero saber o que aconteceu”. E aquele era o momento que elas exercitavam muito intensamente a escuta com os jornalistas estrangeiros, que sempre estiveram naquela região, diferente da imprensa brasileira. Então, eu nunca tive dificuldade de conversar, conviver, me aproximar das casas e ouvir detalhes. Primeiro porque é um povo contador de histórias e segundo porque o isolamento fez com que elas quisessem muito serem ouvidas.

A doutora Adriana Melo foi a primeira a comprovar que o vírus atravessa a placenta das mulheres grávidas infectadas com o zika. Poderia explicar a importância da médica na investigação do vírus?
DD: A doutora Adriana foi a primeira médica a escutar a mulher grávida. O zika foi identificado em abril do ano passado. E havia um grupo de médicos e médicas em Pernambuco atentos ao que acontecia. Mas a doutora Adriana foi a primeira a perguntar: “Peraí, eu estou atendendo uma mulher grávida com zika. Será que o feto tem alguma coisa?”. Como médica de Campina Grande, na Paraíba, ela imaginou que os médicos de Pernambuco já tinham feito essa pergunta antes. Mas ela foi a primeira a efetivamente fazer ciência. Fez uma pergunta certa na hora certa. Ela tem dois doutorados e tem perfil de pesquisadora. Mas é essencialmente uma médica em beira de leito. Então, há uma sagacidade e sensibilidade de médicos de beira de leito para perguntar e ouvir as mulheres. Eles foram essenciais para ouvir as narrativas e escutar as grávidas.

Nas histórias que você conta, percebe-se que os cuidados das crianças são essencialmente responsabilidades das mulheres. Como se forma essa rede de cuidados e laços femininos na região? 
DD: São áreas do país que nós não temos os equipamentos do Estado, nós não temos sequer creches públicas. Então é uma rede comunitária essencialmente familiar e de uma dependência de mulheres. Se a criança tem um choro intermitente ela precisa de outras mulheres se revezando com a mãe para o cuidado. Nós estamos falando de regiões rurais muito pobres. Os modelos de vida das cidades e das suas formas de proteção, como transporte e escolas inclusivas não existem. Então essa é uma rede de cuidados baseados numa rede familiar estendida, e é onde está a centralidade da epidemia do zika.

Você diz que é de suma importância oferecer a todas as mulheres a capacidade de escolher importantes opções reprodutivas. Quais seriam elas? 
DD: Eu participo da Anis – Instituto de Bioética. E nós apresentamos ao Supremo Tribunal Federal (STF) em parceria com a Associação Nacional dos Defensores Públicos (Anadep) alguns pedidos: informações nas escolas e hospitais com linguagem acessível sobre a epidemia e seus riscos – o que nós vemos é que as pessoas não sabem que o zika pode ser transmitido sexualmente, por exemplo; ampliação de métodos de planejamento familiar com a inclusão do repelente; ampliação de métodos contraceptivos com o método hormonal de longa duração, como é o caso do DIU hormonal; interrupção da gestação de mulheres grávidas infectadas pelo zika que estão em sofrimento mental; acesso aos serviços de saúde necessários para o desenvolvimento da criança; acesso ao Benefício de Prestação Continuada, proteção da assistência social para todas crianças e mães vítimas do zika, mas sem recorte de renda familiar.

No livro você comenta que se fala mais do mosquito Aedes Aegypti, o transmissor do vírus zika do que de mulheres grávidas e crianças com microcefalia. Por que isso? 
DD: Todas as políticas públicas e discursos oficiais do Estado falam mais de mosquito e de mulheres, inclusive a ciência. A campanha do governo é com o mosquito, tem o desenho do mosquito. O slogan da campanha oficial de saúde pública foi: “Um mosquito não é mais forte que um país inteiro”. Mas hoje nós temos uma parte da comunidade científica, a doutora Adriana Melo é um exemplo, que defende que é necessário falar de mulheres e de crianças. Continuamente nós acreditamos que se nós acabarmos com o mosquito, nós não temos o problema do zika. Sim, seria uma descoberta espetacular, eu escrevi isso no livro. Mas hoje nós temos uma epidemia com várias formas de transmissão, o mosquito é uma delas. Para as mulheres com zika, o pré-natal é um momento de muito sofrimento. É uma sentença que são dadas a elas. Nós temos um grupo grande de mulheres que vive em sofrimento, tem medo de engravidar e cuida dos seus filhos. O que nós precisamos, e esse é o nosso grande desafio, colocar as mulheres e as meninas e as crianças no centro da discussão.

O número de grávidas com zika têm diminuído ou há uma ameaça global da epidemia do vírus? 
DD: A epidemia tem diminuído, se comparado com o ano passado. Mas isso não quer dizer que a epidemia diminuiu ou sumiu efetivamente. Somente de janeiro a junho deste ano houve um aumento de 157%. Por que nós falamos em epidemia e ameaça global? Porque lidamos com uma doenca com múltiplas formas de transmissão. Nós ainda não conhecemos todos os sinais que afetam o feto e as consequências da infecção no organismo.

Debora também dirigiu o documentário Zika, na Paraíba. O vídeo conta com alguns personagens do livro.

Assista na íntegra:

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