Texto publicado no portal Justificando

 

Gênero parece ter virado palavra maldita, por isso gostaria de começar por ela para pensar o escândalo da violência: segundo pesquisa do Instituto Avon, 56% das estudantes já sofreram assédio sexual nas universidades; 49% já foram desqualificadas intelectualmente; uma em cada três já deixou de fazer algo na universidade por medo de violência. Lembramos Simone Beauvoir no Enem, mas não podemos falar de gênero nas escolas. E o que é gênero? Uma resposta simples para um universitário seria que “não nascemos mulheres, nos transformamos em mulheres”, ou — por que não? — “eles não nascem homens, se transformam em homens”. Não há origem de natureza, mas semente de cultivo com jeito próprio de fazer crescer formatos de gente.

Não ignoro a importância da resposta certa ao vestibular e sua força para explicar algo que nos confunde: como não seríamos mulheres se já nascemos com as partes baixas mais partidas que os homens? Os corpos seriam sexados antes que a linguagem se apropriasse deles pelo gênero, dizem os crentes na natureza da maternidade, na fragilidade dos corpos com útero, na preferência das meninas pelo rosa ou pelas bonecas. Não é verdade, essa é só uma ilusão, e daquelas tão poderosas que nos falam em nome da natureza: a matéria que nos conforma é significada pelo gênero.

Somos sexadas ao nascer, e o gênero organiza a sexagem em formas de comportar-se, desejar, vestir-se, falar ou mesmo viver. Nossa matéria é só matéria, acreditem; sexagem (classificar os corpos em meninos ou meninas, ou, para transtorno dos classificadores, em intersexos) é um gesto do regime político do gênero. Assim, o mais provocador seria dizer, “nascemos, e nos transformamos no que o gênero nos conforma”. Queria poder dizer, “nascemos, e nos transformamos no que quisermos”, mas isso exigiria uma capacidade criadora, quase enlouquecida.

A conformação do gênero não se movimenta apenas sexando os corpos partidos ou fálicos, mas nas apreensões de couros ou formas. Por isso, peço licença para complicar a explicação sobre as razões da violência contra as mulheres nas universidades: há o gênero, mas há o racismo, a discriminação pela deficiência e tantas outras formas de desamparar os corpos. Não é só um corpo de mulher que se ronda para uma cena de violência, mas um corpo com diversos sinais de fragilização: uma mulher negra ou uma mulher jovem e deficiente são variações da conformação do gênero que aliena as mulheres do próprio corpo para o prazer, humor ou gozo de homens violentadores.

Essas são as raízes da violência contra a mulher em ambiente universitário. Ali estão recém-chegados meninos e meninas, jovens adultos, após longos anos de intensa socialização — permitam-se, por favor, usar aqui palavra exagerada — após longos anos de intensa doutrinação de que sexo seria destino. Um corpo partido me deixaria mais sensível para carreiras de cuidado, como esparadrapos ou giz; um corpo fálico, para rodas, engrenagens ou fios. Acreditamos tanto nisso e nos conformamos com tamanha docilidade ao gênero que há poucas meninas na Filosofia ou Engenharia Mecatrônica, e mulherio abundante na Pedagogia. Já somos maioria no ensino superior, mas ainda em guetos da profissionalização feminina.

Por que nos espantamos com os trotes violentos, machistas e sexistas na entrada dos meninos após a prova do Enem — em que responderam certo ao quesito de que sexo não é destino — se não houve uma longa desrealização do gênero como regime político nos anos de escolarização? As famílias são instituições fundamentais de perpetuação do gênero, da heteronorma, da homofobia, e da reprodução biológica como destino dos corpos. Esses meninos chegam à universidade, esse ambiente ritual de passagem de aprendizes para reprodutores do marco político, e ali exercitam imunidades machistas. O trote violento contra as mulheres não é um acaso da cultura universitária: é indício de um rito de passagem dos adolescentes para os jovens adultos, em que a reprodução do regime do gênero os motiva a exercitar a violência contra as mulheres.

Nosso espanto é porque esperaríamos que o “ambiente universitário” alteraria os padrões hegemônicos de socialização do gênero na sociedade brasileira. O jovem universitário pode ser ainda o mesmo menino de ontem que aprendeu, na casa ou na escola conservadora, que homens são agressivos e mulheres são maternais. É preciso falar de gênero, provocar a desnaturalização dos meninos machos para que eles sejam também criadores de outras formas de vivência na masculinidade. O segundo espanto é: por que as meninas teriam medo? Elas são as sobreviventes da naturalização da violência como prática disciplinadora, e a contrapartida do abuso é a imposição do medo e do silêncio. Para que as jovens universitárias falem, é preciso que seu texto seja ouvido por quem duvida do gênero como um destino; é preciso que haja acolhimento para que a violência universitária seja um espanto. Por isso, a quase totalidade das jovens mulheres entrevistadas pela pesquisa do Instituto Avon considera que falar de violência contra as mulheres na universidade deve ser agenda prioritária.

Debora Diniz é antropóloga, professora da Universidade de Brasília, pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética e autora do livro “Cadeia: relatos sobre mulheres” (Civilização Brasileira). Este artigo é parte do falatório Vozes da Igualdade, que todas as semanas assume um tema difícil para vídeos e conversas. Para saber mais sobre o tema deste artigo, siga https://www.facebook.com/AnisBioetica.

Autor: Debora Diniz