O impulso de trancar os loucos não foi invenção do pai ou do irmão de Lucinha, mas uma permanência na história da psiquiatria

por Debora Diniz

Publicado originalmente na Carta Capital

O rosto escondido na rede é de uma menina – Lucinha viveu 16 anos trancada em um casebre no interior do Ceará. A família é miserável, vive da pouca terra que planta. A história foi contada por uma reportagem da Folha de S.Paulo no domingo 3.

O que se sabe é que Lucinha sofre de esquizofrenia, em um momento engravidou de um desconhecido. O filho foi encaminhado para adoção, e ela trancada para não mais engravidar. Louca e mãe solteira foi o suficiente para a sentença comunitária de confinamento a um quarto pior que cela de presídio.

Lucinha não tinha banheiro ou banho de sol. Vivia só, trancada, mas não escondida.

A comunidade sabia do cárcere de Lucinha.

Quando se grita “por uma sociedade sem manicômio” é por uma sociedade sem mulheres trancadas e esquecidas como Lucinha.

Nos cafundós em que vivia, Lucinha foi isolada e trancada, porque como mulher-louca poderia engravidar de qualquer um. A loucura a deixava indócil às regras de disciplinamento da vida das mulheres, e a mais importante delas, a sexualidade.

O impulso de trancar os loucos não foi invenção do pai ou do irmão de Lucinha, mas uma permanência na história da psiquiatria.

Distante na história e na autoridade médica, o irmão de Lucinha reproduziu o gesto de isolar os loucos do convívio comunitário. Foram precisos 16 anos para que uma denúncia anônima convocasse polícia e imprensa para o horror do sofrimento de Lucinha.

Olhamos para Lucinha, a moça na rede do interior do Ceará, e imaginamos que formas perversas de tratamento para pessoas em sofrimento mental, como trancar ou isolar, são ruindades de famílias cruéis.

Não é verdade.

Basta olhar para a faxina na Cracolândia de São Paulo ou para o retorno dos hospícios no Brasil como política de saúde: é a mesma criatividade perversa – confinar ou desaparecer com os loucos.

Assim como Lucinha que um dia foi trancada, e somente 16 anos depois liberta, essa é a história dos que passam pelos muros dos manicômios.

Quando se grita “por uma sociedade sem manicômio” é por uma sociedade sem mulheres trancadas e esquecidas como Lucinha.