Documentário, dirigido por Débora Diniz, se passa dentro da maior (ex?) Cracolândia paulistana, acompanha jovem que adere ao programa “Braços Abertos”

Publicado originalmente na Carta Maior

Hotel Laide, documentário dirigido pela antropóloga e pesquisadora Débora Diniz, se passa dentro da maior (ex?) Cracolândia paulistana. Ele acompanha Angélica Alves, jovem usuária de crack que adere ao Programa Braços Abertos, política pública relacionada às drogas que se insere na perspectiva da redução de danos. O filme está disponível na Rede Mundial de Computadores desde 22 de maio, um dia após a dispersão deflagrada na Cracolândia pela atual Prefeitura de São Paulo em conjunto com o Governo do Estado, envolvendo centenas (diz-se 900) policiais civis e militares. O intuito declarado é “limpar” – leia-se remover a população local – a região e promover a reurbanização da área através de uma parceria público-privada.

Antes da “limpeza”, entre 2015 e 2016, Angélica teve a sua inserção no hotel social que dá nome ao filme registrada pela câmera. Como? É preciso recorrer a duas camadas narrativas e entre-cruzá-las, para compreender. Aquela que Hotel Laideconta e outra, que nos chega pela voz da diretora do filme  em entrevistas e matérias jornalísticas. Débora relata ao leitor de notícias e artigos o processo de produção do documentário: ela permaneceu alguns dias nos arredores da rua Dino Bueno, até conseguir autorização para entrar no chamado fluxo – o espaço de circulação da Cracolândia. Negociou com a liderança, que lhe concedeu um “salve” para andar livremente e filmar com câmera aberta.

Numa das cenas iniciais, vemos a diretora circulando no fluxo ao lado de Carmem Lopes, a assistente social que em virtude de seu trabalho conquistou a confiança dos moradores de rua da região. O espectador vê as duas mulheres através de uma imagem levementedistorcida, de um ângulo alto.  Em seguida, somos informados pelo lettering : “Câmera de Vigilância, Guarda Civil Metropolitana, São Paulo, julho 2015”. Seguem-se a este, outros ângulos altos, onde se pode ver o movimento da pequena multidão. E só então entra em cena Angélica. Carmen se aproxima. Corta para as duas caminhando lado a lado:

–       Carmen: tá feliz de dormir hoje no hotel?

–       Angélica: tá bom, tá ótimo, melhor que tá dormindo na rua.

Elasvão até o Hotel: a fachada verde, o corredor estreito e pouco iluminado, de paredes coloridas, a recepção. Quem as recebe é Dona Laíde. Vemos uma mulher descer a escada. Ela alcança o andar térreo falando muito: aexplicação sobre o que é, na prática, a redução de danos, está na fala de Brenda Bracho, usuária que deixou a rua, adotou o hotel (ou pensão) social e assumiu a organização e a limpeza daquele espaço como seu trabalho. Ela explica “Porque o programa é redução de danos , não é parar de usar a química, é se cuidar mais (…) eu mudei 80 %… não vamos exagerar: 70%”” É também Brenda quem dá boas vindas à nova moradora e informa as regras: banho, portas fechadas à meia -noite, nada de cigarro ou homem no quarto.

Durante a entrevista com Angélica, ficamos sabendo que ela está na rua desde 7 anos, que tem uma filha, que já foi internada e submetida a tratamento com remédios (“vivia totalmente dopada”) e que deseja se recuperar. Seu relato e sua postura têm verdade, – incomodam mais do que emocionam.

Maria Laide, a administradora dohotel, quase não fala durante os vinte e três minutos de filme. Sua grande cena acontece a céu aberto, no lado externo, no fluxo mesmo. Ao sair para passear com a netinha Maria Paula (dois anos de idade, talvez), a Dona Laíde desfila entre a população local. A câmera se move junto com ela. Mas isso não importa, o que nos movimenta não é a imagem,  é o som: à medida que a senhora avança empurrando o carrinho, homens e mulheres sentados ou deitados na calçada e no meio fio, gritam uns para os outros “olha o anjo, olha o anjo, olha o anjoooo”.

Não aconteceu por acaso. Débora, naquele tempo de espera em que permaneceu nos arredores do fluxo, observou que toda a vez que uma criança passa, moradores da (ex?) Cracolândia gritam “olha o anjo”, e escondem o cachimbo. Fica evidente para o espectador a intenção da diretora: demonstrar o senso de alteridade que ainda resiste naquela população marginalizada.

Esta ideia, aliás, é corroborada pela cena gravada um ano depois, no interior do Hotel. Angélica ao lado de Brenda, de Laide e da pequena Maria Paula, numa sala de estar. De certa forma, elas comemoram e fazem um balanço da permanência de Angélica ali. A moça conseguiu diminuir bastante o consumo de crack , tem casa, comida, tratamento e trabalho oferecido pelo programa. Ela diz que o melhor foi  “a oportunidade de poder mudar, de entrar e começar tudo de novo”.

Concluo: o filme, claramente, toma uma posição. Ele não se situa, sob o ponto de vista do campo que discute a política de drogas, ao lado do internamento compulsório. Ele quer mostrar – e mostra – um exemplo concreto da eficácia da política de redução de danos. E é justamente por isso que sob ele podem recair suspeitas. O espectador pode atribuir à narrativa fílmica um ethos político-partidário. Afinal, quem garante que os vários operadores da linguagem cinematográfica – o cinegrafista, o diretor, o montador –  não deram aquela forçadinha para garantir o elogio à política de redução de danos?

O filme não termina após o balanço de Angélica. Depois do “final feliz”, entram planos gerais da limpeza que é feita diariamente nas ruas da Cracolândia. Neste ponto, aquele nosso espectador desconfiado e imaginário pode pensar: “agora eles querem mostrar que o lugar é limpo.”

Supor esta leitura é plausível num contexto de radicalização e aguda polarização política em que vivemos. Assim como cogitar que alguém possa supor, de antemão, que a política de redução de danos foi uma criação do governo petista, e não um conceito que surgiu na década de 1990, na América Latina, para fazer frente à epidemia de HVI.

Seguimos.

Entra em quadro outro letreiro, onde podemos ler: “Em 2017 um incêndio destruiu o Hotel Laide”.  As cenas subsequentes são montagens de fotos dos escombros carbonizados do Hotel Laíde. E mais um letreiro: “as causas do incêndio são desconhecidas”.

Pesquisei: este incêndio aconteceu no dia 5 de março de 2017. As imagens da destruição que provocou devem ter sido justapostas à última versão filme, ao corte final, como se diz no jarguão cinematográfico, nos momentos derradeiros da montagem.

Pois, é justamente este trágico inesperado que rouba do filme a  possibilidade de ele ser “somente” – e se fosse apenas isso já seria muito – um testemunho sobre a eficácia de um programa de governo, ou um discurso em prol de tal ou qual política de drogas. (Vejam, não estou dizendo que a política de redução de danos não seja  acertada, nem que realizar um discurso sobre ela seja equivocado).

O elemento que torna o Hotel Laide um testemunho contundente, é o elemento a um só tempo externo à filmagem e incontrolável. As fotografias aderidas à narrativa  cinematográfica à última hora, invertem a lógica da própria narratividade fílmica: o ponto de chegada do espectador é a linha de saída da personagem-protagonista. Assistir este documentário sobre o passado recente do Hotel Laide e da Cracolândia, é  presentificar um futuro sem devir.

De resto, me pergunto por onde andarão Angélica, Brenda…