por Sinara Gumieri

Publicado originalmente em Carta Capital

Em 10 de janeiro de 2017, uma menina de 11 anos do Recanto das Emas – DF foi estuprada por cinco homens: quatro adolescentes com idades entre 13 e 17 anos e um adulto de 20. A violência brutal foi filmada em um celular. O enredo desse crime de horror evoca outros, todos noticiados há menos de um ano: no Rio de Janeiro – RJ, uma adolescente de 16 anos, 33 homens, imagens divulgadas em redes sociais. Em Juiz de Fora – MG, uma menina de 13 anos, oito homens, imagens divulgadas pela internet. No Park Way-DF, outra menina de 13 anos, três adolescentes. Em Araraquara – SP, uma jovem de 18 anos, cinco homens. Em Palmas – TO, uma adolescente de 14 anos, quatro homens. Em Salvador – BA, uma mulher de 22 anos, quatro homens. É fácil ampliar a lista de estupros coletivos.

Também é fácil emudecer diante de despossessão tão extrema dos corpos de meninas e mulheres, brutalizados por meninos e homens que lhes negam humanidade. Compartilham a violência entre pares e convertem imagens do horror em troféus. Mas não podemos calar e não temos direito de nos confundir. Não, não é loucura coletiva nem macho violento por natureza. É o regime do gênero atualizando o patriarcado na socialização de meninos que, ao violentar, reproduzem uma ordem já conhecida de corpos menos importantes, corpos desprotegidos, corpos desiguais.

 

Falar de gênero em todo lugar, mas especialmente nas escolas, é necessidade de sobrevivência para meninas

 

Para amparar as vítimas que resistem, para proteger aquelas que seguem sendo as personagens em potencial da próxima notícia do horror simplesmente por serem meninas e mulheres, é preciso ensinar meninos desde cedo a não estuprar, a não espancar, a não matar. Mais do que isso: a respeitar, a cuidar, a admirar. Não é difícil aprender: as meninas conseguem, os meninos darão conta.

Mas precisamos ser firmes: gênero na escola é urgente. Não caiamos, uma e outra vez, na conversa de endurecer pena. Em maio de 2016, 15 dias depois do caso de estupro cometido por mais de 30 homens no Rio de Janeiro, o Senado aprovou pena maior para o crime (PLS 618/2015); o projeto chegou à Câmara (PL 5452/2016) e por lá parou. Missão cumprida: o apelo ao encarceramento como solução para violência não resolve nada mas garante visibilidade e voto.

Enquanto isso, ao longo do ano, versões municipais e estaduais de leis da mordaça, proibindo educação escolar sobre gênero e sexualidade, avançaram em assembleias legislativas do país. Mesmo antes de aprovadas, escolas sofreram com a patrulha de bancadas evangélicas querendo restringir debates sobre igualdade. Foi tempo perdido para aprender que ameaça de punição não muda comportamento, educação para igualdade sim. Meninas e mulheres não podem esperar mais.