Texto publicado no portal Justificando

 

#16diasdeativismo #MexeuComUmaMexeuComTodas

 

O ativismo é global. São 150 países em campanha “Torne o mundo laranja”. Laranja é a cor da esperança para a Organização das Nações Unidas para as Mulheres. E o pedido de esperança é vergonhoso: que se pare de maltratar, violentar e matar mulheres. Uma companha pelo fim da violência contra as mulheres me soa um tiquinho contraditória — precisamos anunciar o óbvio, mas com um agravante de escala: as mulheres têm direito à vida sem violência. Mas se a campanha é tema de conversa em tantos países, não seria a violência contra a mulher uma questão universal, portanto, natural?

Sinto até arrepios em responder a essa pergunta, mas ela deve ser enfrentada nas suas raízes mais ingênuas. Não há natureza de gênero na violência contra a mulher. Um homem não nasce violentador, uma mulher não nasce predestinada a sobreviver com pai, marido ou filho agressor. Sim, falo do gênero, aquela palavra maldita da prova do ENEM, a mesma que se alardeia por aí como ideologia para o fim da família e dos amores heterossexuais. Não é da natureza do humano sexado como macho matar mulheres; é da ordem da socialização do gênero, um modelo de organização, disciplina e pedagogia dos corpos sexados.

A campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência Contra as Mulheres anuncia que há padrões injustos de socialização na casa, na igreja ou na escola que precisam ser modificados. O pedido de “mundo laranja” chegou a Moçambique, um país sobrevivente da brutal colonização portuguesa. Não sei dizer se Paulina Chiziane, a primeira romancista daquele país, foi acompanhar quem falava pelos direitos das mulheres em nome dos direitos fundamentais. Sem a cor laranja, mas com as letras de quem sobrevive ao gênero opressor, Chiziane conta histórias de mulheres que convivem com a poligamia, a violência e o lobolo. Suas personagens são todas sobreviventes do gênero violento que se instaura como lei em nome da cultura e da tradição. O título grandioso de primeira escritora lhe é estranho, pois Chiziane explica que só conta histórias ouvidas na cozinha ou na machamba, os lugares das mulheres no regime patriarcal da vida.

Em Moçambique e no Brasil, as mulheres sofrem violências na casa, e os agressores são seus conhecidos. Assim como fez a ONU, não me acanho de anunciar que não há relativismo que justifique violência ou matança de mulheres em nome do gênero. Dizer que uma menina apanhou, pois o pai a descobriu desvirginada, ou que uma mulher lobolada foi surrada, pois seu marido a tem como propriedade do dote, são só retóricas abusivas para justificar a opressão em termos culturais. A diversidade cultural não justifica a violação de direitos fundamentais — a escala planetária da campanha é só um sinal do tamanho da resistência. Temos que anunciar a centenas de países que, independente das regras locais, sejam elas da tradição ou dos juízes, as mulheres têm o direito de viver livres da violência, pois não são refugiadas da vida. Só assim elas poderão modificar o lamento de Rami, a personagem de Chiziane em Niketche: “na terra do meu marido sou estrangeira. Na terra dos meus pais sou passageira. Não sou de lugar nenhum. Não tenho registo, no mapa da vida não tenho nome”. [1]

Debora Diniz é antropóloga, professora da Universidade de Brasília, pesquisadora da Anis – Instituto de Bioética e autora do livro “Cadeia: relatos sobre mulheres” (Civilização Brasileira). Este artigo é parte do falatório Vozes da Igualdade, que todas as semanas assume um tema difícil para vídeos e conversas. Para saber mais sobre o tema deste artigo, siga https://www.facebook.com/AnisBioetica.

REFERÊNCIAS
[1] Chiziane, Paulina. Niketche: uma história de poligamia. 1. reimp. São Paulo: Companhia das Letras, 2004: 90

Autor: Debora Diniz